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Minha História - Renata Bernhoeft

14/10/2003, por Flávia de Almeida Prado

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RENATA BERNHOEFT- Corredora Associada Corpore em Minha História

Meia maratona, gestão e conquistas pessoais

Nunca pensei que estaria pronta para este momento, mas a conquista foi maravilhosa. Há quase quatro anos era uma pessoa absolutamente sedentária, fumante capaz de consumir 20 cigarros por dia, consultora e profissional produtiva, porém cansada e estressada. Foi num final de semana, por uma causa não muito nobre, que resolvi tomar uma atitude. Vi uma de minhas melhores amigas, alguns anos mais velha do que eu, de biquíni. E como a inveja, pode ter seu lado positivo, alguns meses depois me inscrevi no mesmo grupo em que ela treinava corrida. Claro, eu já havia feito muito esporte na infância e na adolescência, mas todo o gás profissional da entrada na vida adulta tinha me colocado bem longe do contato com meu próprio corpo. Lá estava eu treinando. Comecei andando, após um teste de esteira no Incor (Instituto do Coração). Levei quase dois anos para criar a disciplina e levar a sério. Depois de 6 meses treinando comecei a fazer provas de 6 e 10 km, mas na primeira prova mais longa que fiz me machuquei. Há exatos 9 meses retornei de fato e ontem realizei a conquista suprema, para um ser absolutamente mortal, completei os 21 km da VII Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro.

Uma corrida como essa, feita pela primeira vez, cria uma marca profunda no corpo e também na alma. A largada reunia quase 12.000 corredores e aconteceu sob um sol forte quase às 9:40 da manhã em São Conrado. Prevendo que para um atleta iniciante a prova durará mais de 2 horas pode-se imaginar o impacto do calor no percurso. Os primeiros 4 km foram leves e divertidos, apesar da subida, havia ainda muito gás disponível, passando pelo Morro do Vidigal e sendo saudados pela comunidade tomando cerveja. Isto traz a primeira reflexão sobre os objetivos: será que eu deveria estar relaxando? Você se convence que está lá porque treinou e desejou, observa a paisagem, sorri e segue em frente. Como tudo na vida esta é uma relação: custo e benefício. Depois Leblon, Ipanema, Copacabana e Leme, muito, muito calor, procuro o posto de apoio, água, água. Km 10: primeira vez que me ocorre, acho que não vou conseguir. Um colega de minha equipe que corria em meu ritmo: vamos diminuir, comece a comer (sache de carboidratos que levamos para nos alimentar durante a prova) Beba água. Os mecanismos de apoio são vitais neste processo, apesar da corrida ser uma conquista individual outras pessoas estão trabalhando ou trabalharam para que você estivesse ali. Agora o esforço é seu. Água, muita água, entramos no túnel, que delícia um vento, sensação de conquista. Vou conseguir sim, treinei para estar aqui, estou preparada, falo com meu corpo: corpinho, só mais uma hora e quinze minutos, vamos lá. Saída do túnel, nova paisagem, Botafogo, calor, quase nenhuma sombra, perdi a vista da Cidade Maravilhosa, já não olho mais nada, só para dentro de mim, digo: eu vou, diminuo mas não paro, isto é possível, eu treinei, me preparei, vamos corpinho, só mais 55 minutos. Os músculos doem, olho o relógio novamente, ele anda muito lentamente, continuo, olho para minhas pernas, olho os outros, alguns estão me ultrapassando.

Não é uma corrida com ninguém, não há como competir com outros, você é forçado a olhar para você, a buscar a sua força. Vejo pessoas parando, começando a caminhar. Minhas pernas fraquejam. Sigo lentamente.

Km 15: não agüento mais, digo para meu colega: “vá, eu vou caminhar”. Ele se frustra, mas eu não dou opção. Passo pelo posto de água pego um copo, vou caminhando e me hidratando, como mais um pouco, andei 400m e penso: “estou aqui para fazer, meu corpo está cansado sim, mas não rompi meus limites, nem abusei dele, eu posso fazer isso”.

Começo a correr novamente, lentamente, a vida volta, abro um sorriso, de mim para mim, momentos de conquista pessoal, nada mais importante do que acreditar em si mesmo. Começo a refletir sobre o quanto dependemos do olhar dos outros na vida. O quanto nos levamos a fazer coisas para que os outros nos dêem valor. Neste momento, isto não faz o menor sentido. É uma sensação exatamente oposta e gosto de me sentir assim, neste momento só eu me vejo e se quiser parar, paro. Se quiser continuar isto é comigo, não preciso provar nada para ninguém. Vou crescendo, por dentro, tenho poder para mudar. Não é poder sobre os outros, este é o poder sobre mim, posso mudar meu corpo, cuidar de mim, testar meus limites, fazer bem feito. Meu corpo responde bem aos cuidados que tenho dedicado, aos treinos com a correta orientação, a alimentação, o apoio dos colegas de equipe. Penso, reflito: se posso fazer isto, há muitas outras coisas que achei que não pudesse e com certeza se me dedicar conseguirei, parece mágica mas não é, é dedicação e trabalho. Só isso.

Km 18: o tempo vai nublando, mas este final é cruel. De um lado da pista corro e tento me concentrar. Do outro lado está a chegada, todos já comemorando. Para mim, e para muitos, ainda faltam 3km, ir até a curva e voltar. Corro. Cadê a curva? Não chega... Corro e digo: “vamos corpinho, só mais 20 minutos, vamos, mantenha o foco, eu posso, já cheguei até aqui então posso”. Devagar, vou vendo a curva e quando viro não me contenho, falta 1,5km, alguns passam por mim, outros começam a caminhar, estou só preocupada em manter meu ritmo, continuo.

Km 20,5: faltam 500 m, busco toda minha energia e acelero, um arrepio invade meu corpo, ao fundo o Pão de Açúcar, o céu nublado, um ventinho refrescante. Suada, cruzo a linha de chegada, 2h17min43s, meu próprio recorde. Termino, abro um sorriso, começo a chorar, de alegria, encontro meu irmão, minha cunhada, foram assistir e tirar fotos. Eu choro, eu rio. Eu fiz.

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