| Meia maratona,
gestão e conquistas pessoais
Nunca
pensei que estaria pronta para este momento, mas
a conquista foi maravilhosa. Há quase quatro
anos era uma pessoa absolutamente sedentária,
fumante capaz de consumir 20 cigarros por dia,
consultora e profissional produtiva, porém
cansada e estressada. Foi num final de semana,
por uma causa não muito nobre, que resolvi
tomar uma atitude. Vi uma de minhas melhores amigas,
alguns anos mais velha do que eu, de biquíni.
E como a inveja, pode ter seu lado positivo, alguns
meses depois me inscrevi no mesmo grupo em que
ela treinava corrida. Claro, eu já havia
feito muito esporte na infância e na adolescência,
mas todo o gás profissional da entrada
na vida adulta tinha me colocado bem longe do
contato com meu próprio corpo. Lá
estava eu treinando. Comecei andando, após
um teste de esteira no Incor (Instituto do Coração).
Levei quase dois anos para criar a disciplina
e levar a sério. Depois de 6 meses treinando
comecei a fazer provas de 6 e 10 km, mas na primeira
prova mais longa que fiz me machuquei. Há
exatos 9 meses retornei de fato e ontem realizei
a conquista suprema, para um ser absolutamente
mortal, completei os 21 km da VII Meia Maratona
Internacional do Rio de Janeiro.
Uma corrida como essa, feita pela
primeira vez, cria uma marca profunda no corpo
e também na alma. A largada reunia quase
12.000 corredores e aconteceu sob um sol forte
quase às 9:40 da manhã em São
Conrado. Prevendo que para um atleta iniciante
a prova durará mais de 2 horas pode-se
imaginar o impacto do calor no percurso. Os primeiros
4 km foram leves e divertidos, apesar da subida,
havia ainda muito gás disponível,
passando pelo Morro do Vidigal e sendo saudados
pela comunidade tomando cerveja. Isto traz a primeira
reflexão sobre os objetivos: será
que eu deveria estar relaxando? Você se
convence que está lá porque treinou
e desejou, observa a paisagem, sorri e segue em
frente. Como tudo na vida esta é uma relação:
custo e benefício. Depois Leblon, Ipanema,
Copacabana e Leme, muito, muito calor, procuro
o posto de apoio, água, água. Km
10: primeira vez que me ocorre, acho que não
vou conseguir. Um colega de minha equipe que corria
em meu ritmo: vamos diminuir, comece a comer (sache
de carboidratos que levamos para nos alimentar
durante a prova) Beba água. Os mecanismos
de apoio são vitais neste processo, apesar
da corrida ser uma conquista individual outras
pessoas estão trabalhando ou trabalharam
para que você estivesse ali. Agora o esforço
é seu. Água, muita água,
entramos no túnel, que delícia um
vento, sensação de conquista. Vou
conseguir sim, treinei para estar aqui, estou
preparada, falo com meu corpo: corpinho, só
mais uma hora e quinze minutos, vamos lá.
Saída do túnel, nova paisagem, Botafogo,
calor, quase nenhuma sombra, perdi a vista da
Cidade Maravilhosa, já não olho
mais nada, só para dentro de mim, digo:
eu vou, diminuo mas não paro, isto é
possível, eu treinei, me preparei, vamos
corpinho, só mais 55 minutos. Os músculos
doem, olho o relógio novamente, ele anda
muito lentamente, continuo, olho para minhas pernas,
olho os outros, alguns estão me ultrapassando.
Não é uma corrida
com ninguém, não há como
competir com outros, você é forçado
a olhar para você, a buscar a sua força.
Vejo pessoas parando, começando a caminhar.
Minhas pernas fraquejam. Sigo lentamente.
Km 15: não agüento
mais, digo para meu colega: “vá,
eu vou caminhar”. Ele se frustra, mas eu
não dou opção. Passo pelo
posto de água pego um copo, vou caminhando
e me hidratando, como mais um pouco, andei 400m
e penso: “estou aqui para fazer, meu corpo
está cansado sim, mas não rompi
meus limites, nem abusei dele, eu posso fazer
isso”.
Começo a correr novamente,
lentamente, a vida volta, abro um sorriso, de
mim para mim, momentos de conquista pessoal, nada
mais importante do que acreditar em si mesmo.
Começo a refletir sobre o quanto dependemos
do olhar dos outros na vida. O quanto nos levamos
a fazer coisas para que os outros nos dêem
valor. Neste momento, isto não faz o menor
sentido. É uma sensação exatamente
oposta e gosto de me sentir assim, neste momento
só eu me vejo e se quiser parar, paro.
Se quiser continuar isto é comigo, não
preciso provar nada para ninguém. Vou crescendo,
por dentro, tenho poder para mudar. Não
é poder sobre os outros, este é
o poder sobre mim, posso mudar meu corpo, cuidar
de mim, testar meus limites, fazer bem feito.
Meu corpo responde bem aos cuidados que tenho
dedicado, aos treinos com a correta orientação,
a alimentação, o apoio dos colegas
de equipe. Penso, reflito: se posso fazer isto,
há muitas outras coisas que achei que não
pudesse e com certeza se me dedicar conseguirei,
parece mágica mas não é,
é dedicação e trabalho. Só
isso.
Km
18: o tempo vai nublando, mas este final é
cruel. De um lado da pista corro e tento me concentrar.
Do outro lado está a chegada, todos já
comemorando. Para mim, e para muitos, ainda faltam
3km, ir até a curva e voltar. Corro. Cadê
a curva? Não chega... Corro e digo: “vamos
corpinho, só mais 20 minutos, vamos, mantenha
o foco, eu posso, já cheguei até
aqui então posso”. Devagar, vou vendo
a curva e quando viro não me contenho,
falta 1,5km, alguns passam por mim, outros começam
a caminhar, estou só preocupada em manter
meu ritmo, continuo.
Km
20,5: faltam 500 m, busco toda minha energia e
acelero, um arrepio invade meu corpo, ao fundo
o Pão de Açúcar, o céu
nublado, um ventinho refrescante. Suada, cruzo
a linha de chegada, 2h17min43s, meu próprio
recorde. Termino, abro um sorriso, começo
a chorar, de alegria, encontro meu irmão,
minha cunhada, foram assistir e tirar fotos. Eu
choro, eu rio. Eu fiz.
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