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Entrevista com Carlos Ventura
- autor do livro Aprendendo a Correr


Carlos Ventura, o Carlão, técnico de grande notoriedade do atletismo brasileiro, lançou recentemente seu segundo livro – Aprendendo a Correr, patrocinado pela Universidade Ibirapuera, cuja renda será revertida para as crianças que sofrem de câncer da entidade HOPE.

Trajetória e histórias

Carlão começou a trabalhar em 1970 como auxiliar técnico na cidade de Santo André, onde o treinador era o falecido Paulo da Costa Rezende. Trabalhou de graça por cerca de quatro anos, com o objetivo de adquirir experiência. Num dos Jogos Abertos do Interior de SP, na cidade de Tupã, Carlão então recebeu o convite da Secretaria Municipal de Esportes de São Caetano do Sul para ser técnico da cidade. “Abracei a oportunidade e este trabalho foi fantástico. Tivemos muitas vitórias no interior do estado, conseguimos dar destaque a atletas como Rosa Maria Aparecida de Souza que ganhou inúmeros Troféus Brasil nos 1500m e 800m, participamos da primeira corrida de longa distância feminina no Esporte Clube Pinheiros do Brasil, de 3 mil metros” conta. Na época, a opinião pública se chocou com a idéia da realização de prova feminina de longa distância. A atleta Valdete Constantino da Silva, treinada por Carlão, ganhou pelo clube General Motors de São Caetano – e foi a primeira brasileira a ganhar uma prova de 3 mil metros de pista.

Na primeira edição da São Silvestre feminina, a atleta Rosa Maria Aparecida de Souza, que o treinador descreve como fantástica, foi a 7ª ou 8ª colocada, e diz “isto foi muito dignificante, e faz parte da história do atletismo brasileiro. Eu já era apaixonado pela São Silvestre. No cinqüentenário desta prova, veio para o Brasil um atleta de quem eu era fã: Kennet Norris, e como eu já tinha alguma notoriedade como técnico, entrei em contato com o pessoal da Gazeta Esportiva para trabalhar na organização da prova. Bom, consegui passar dois dias acompanhando o Kennet, o levando para o centro para que ele pudesse conhecer a cidade, andamos pela Avenida Paulista. Uma ótima lembrança”.

Seu primeiro livro, Corredor de Rua, considerado um tanto romântico pelo próprio autor, conta sua trajetória como treinador, suas conquistas no esporte, e também presta uma homenagem a um de seus atletas mais bem sucedidos – José João da Silva – atleta olímpico bi-campeão da São Silvestre.

Carlão sonhava ganhar a São Silvestre desde jovem. Em seu primeiro livro, conta que, na época em que os EUA lançaram as espaçonaves Apollo, criou um projeto de atletismo em São Caetano com o mesmo nome. Selecionou alguns atletas fundistas e os treinou para vencerem a tradicional prova paulistana. “À época, disse algo que foi mal interpretado, inclusive pelo presidente da Comissão Municipal do Esporte – Sr. João Luis Pascoal Bonaparte, que quando ganhei a São Silvestre dirigiu-se a mim com um pedido de desculpas pela má interpretação da frase que dizia o seguinte: Se um dia o senhor quiser ganhar uma prova de nível internacional como a São Silvestre, o senhor tem que tratar o ser humano como um cavalo de corrida do Jóquei Clube. Por que aqui no Brasil os cavalos são melhor tratados do que o povo”. Carlão conta que ficou muito marcado por dizer isso, mas seguiu sua carreira com sucesso. Foi então convidado para trabalhar no Centro Olímpico, pelo falecido comendador e presidente da Federação Paulista de Atletismo Evaldo Gomes da Silva. Foi trabalhar junto com o então Secretário dos Esportes Caio Pompeu de Toledo, quando foi fundada a campanha Adote um Atleta. Concomitantemente, Carlão também se tornou técnico do Esporte Clube Pinheiros. “Lá então, recebemos um atleta, que mal sabia andar, quanto menos correr: José João da Silva. E o Pedrão - Pedro Henrique Camargo de Toledo – técnico do João do Pulo - deu um apelido para ele: Arataca”.

Carlão conta que Zé João era terrível, pois não sabia nada de corrida, e para inverter esta situação, passou a treiná-lo através da metodologia da Escola Alemã Educativa de Corrida, “e ele então começou a melhorar”. Sua primeira competição foi um Troféu Brasil, no Rio de Janeiro, com 25 candidatos. “Ele foi o 24º – sendo que um havia desistido – ou seja, foi o último colocado”, lembra. Mas José João continuou seu treinamento e começou a evoluir, até se tornar um grande atleta olímpico, vendedor de duas edições da São Silvestre. “Por isso, quando cortamos um garoto no início do treinamento, podemos estar cometendo um equivoco, pois acredito que todas as pessoas têm o direito de se desenvolverem, em todos os setores da vida”. Hoje José João tem mais de 40 anos e treina diariamente, com muita disciplina. “Acredito que isso faça com que minha teoria, de que o atleta tem que ser tratado como um cavalo de corrida – no melhor sentido possível –; é válida até hoje”. A disciplina é a condição básica para o ser humano evoluir, não só no esporte, segundo o treinador. E completa: “O esporte leva à disciplina”.

O segundo livro – conhecimento, opiniões e atitudes

“Um problema que vejo no país é a ausência de um livro sobre atletismo escrito por brasileiros, para brasileiros. Então me preocupei em colocar aqui a nossa realidade, coloquei aqui o que passei nos últimos 40 anos trabalhando com esporte”.

Os anos foram passando, e Carlão passou a publicar muitos artigos técnicos na Internet. “Gosto muito de escrever, apesar de reconhecer a dificuldade do ofício”. Nestas publicações o técnico fala sobre treinos de tiro, contusões, disciplina, psicologia no esporte, etc. Foi então que seu filho mais velho, André, lançou a idéia de fazer um livro com o mesmo conteúdo dos artigos que escrevia para a Internet. “Me deu uma coceirinha na mão, e resolvi fazer. Montei o livro, então ele me deu mais uma luz. Não sabia que título dar para o livro, e então que ele me disse: ‘pai, você não está ensinando as pessoas a correr?’. Respondi que era o que tentava fazer e ele completou: ‘então! Coloca: aprendendo a correr’”. Na capa do livro Carlos colocou uma foto de seu filho mais novo, de 4 anos de idade, numa imagem onde ele apresenta uma boa mecânica de corrida. A montagem da capa foi feita por Carlos com o objetivo de homenagear alguns corredores que passaram por sua história e inspirar os iniciantes a batalharem por seus objetivos.

Por este motivo, da mesma forma, o autor colocou uma imagem de um atleta cadeirante na capa. Carlos foi técnico brasileiro nos Jogos Panamericanos de Cadeiras de Roda em 1979, ano em que o Brasil foi o terceiro colocado na competição. “Não seria justo escrever este livro e excluir os cadeirantes. Acredito que estes atletas devam receber todo o apoio possível. Obstáculos podem ser ultrapassados e trazer muita alegria e saúde para o ser humano. O esporte nos dignifica”.

Carlos Ventura faz uma crítica dura à organização de algumas provas no país: “Acho que festas são sempre bonitas, mas não acredito que os atletas de elite devam ser tratados como o são no Brasil. Há a necessidade de separar os atletas de ponta dos atletas festivos-participantes. Isto deve ser feito para que possamos atingir resultados positivos quanto ao sucesso da competitividade. E estamos falhando devido a um aspecto demagógico e comercial de algumas provas organizadas no país”. Nas provas da Corpore isto não acontece, diz Carlão, que lembrou inclusive da 8ª Edição da prova 10km São Paulo Classic Corpore, quando houve o cumprimento da largada da elite feminina dez minutos antes da largada masculina. “Este tipo de procedimento trás imensos benefícios às atletas, que conseguem serem tratadas de forma correta, onde a prova também mantém suas qualidades técnicas. A Corpore faz provas maravilhosas e se tivesse sido fundada na década de 40, por exemplo, talvez teríamos mais atletas de elite de fundo”.


Carlos Ventura ao lado do
Presidente da Corpore, David Cytrynowicz e
do Diretor Técnico da Corpore, Mario Rollo,
minutos antes da largada da
3a Edição da Corrida Corpore
Academia de Polícia Militar do Barro Branco
- 8 de junho de 2003

 

“Acho que a melhora técnica de um corredor de rua tem que ser avaliada na pista, pois a pista ajuda na rua e vice-versa. O diálogo entre as práticas é benéfico. A maior parte dos corredores de rua não sabem, por exemplo, como utilizar o cronômetro como ferramenta eficiente para seu treinamento. Quando ele começa a treinar na pista, isso muda e ele consegue aprimorar sua performance”.

Sobre seu trabalho como treinador que obteve ótimos resultados na São Silvestre, durante dez anos, Carlão conta que preparou os atletas para ganhar realizando treinamentos em pista. Além da São silvestre, a equipe de Carlão teve sucesso na Meia Maratona de Milão, Maratona de Munique, etc. “Embora muitos critiquem a corrida de rua, o asfalto não é vilão. O que é prejudicial é o treino inadequado. O treinador tem que saber trabalhar o atleta, com conhecimento científico”.

Quanto à doação da verba arrecadada com a venda do livro para crianças que sofrem de câncer, Carlos conta que chegou num momento da vida que não poderia deixar de fazer algo para ajudar os outros. Para fazer o livro, foi ao encontro do diretor da Universidade Ibirapuera, o professor Sebastião, que decidiu patrocinar sua produção. Então o autor colocou o livro a venda em duas das entidades que considera as mais sérias do país: Corpore e FPA. “Poder ajudar as crianças é uma coisa fantástica. Estou fazendo uma coisa que deveria ter feito há mais tempo. Quando escrevo livros não faço pra ganhar dinheiro, mas sim para passar para os outros os meus conhecimentos”.

Neste livro o treinador fornece dados técnicos evidenciando o lado psicológico do treinamento. Carlos conta que foi o primeiro técnico de atletismo brasileiro a trabalhar com psicólogos, na década de 80. “Acredito que a linha de trabalho desta dupla tem que ser atrelada. O atleta tem que poder confiar nos dois profissionais de forma igual, para que não haja surpresas. Além disso, os dois devem manter o diálogo para que estejam cientes do treinamento e tratamento do atleta”, concluiu.

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Por: Flávia de Almeida Prado

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