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Andréa Sarubbi
Os passos de uma conquista
Na virada do ano o compromisso de realizar
uma maratona. Só não pensei que seriam apenas
dois meses e meio de treino intenso. Duas semanas perdidas,
às vésperas da prova, com uma gripe, uma forte
gripe.
Enfim chegou o dia da viagem. Embarcamos para
Santiago (Chile). Um mix de sentimentos ocupava meus pensamentos.
Pensei: “Não estou preparada...”. Hoje
sei o quanto não estava.
Na véspera da prova muita expectativa,
concentração, pensamentos soltos, anseios, temores
e quietude. É... quietude!
Enfim dia 1º de abril chegou.
O dia amanheceu frio, em torno de 14°
e nublado. Acordei o corpo mal dormido pela ansiedade com
um banho, enquanto a água acariciava meu rosto, senti
medo, medo de acovardar; balancei a cabeça e livrei-me
dos pensamentos inadequados para o momento. Preparei-me para
o feito: bermuda, camiseta com a bandeira do Brasil (valeu
Regina! Muito me ajudou), proteção para os pés
(obrigada meu amor!), vaselina, frio na barriga, jujuba, frio
na barriga, malto em pó, mais frio na barriga ainda...
Chegando ao Parque Araucano pude vislumbrar
uma multidão de corredores e espectadores agitados,
sorridentes, nervosos, ansiosos, todos com as mesmas sensações
minhas. Porém, para mim e alguns outros, era a primeira
vez! E neste instante, a quietude alcançou-me profundamente,
envolveu-me como numa bolha e os sons simplesmente cessaram,
os movimentos abrandaram e eu pude sentir frio... o frio da
contagem regressiva...9,8,7,6,5,4,3,2,1.... Largamos! Meus
olhos observavam tudo a minha volta, meus ouvidos ouviam a
distância: “Braaasssiiilllll....”. Era eu!
Era a nossa camiseta, Regina! É muito interessante
esta sensação, é energética.
Muitos
corredores passavam por nós e berravam “BRASIL!”.
Eles me estimulavam.
De repente surge uma brasileira de São Paulo, corremos
juntos uns 5km, mas ela era da meia maratona, nos afastamos.
A cada 5km tínhamos água, porém, o clima
não fazia sentir sede, mas Dr. Mizu orientava para
que me hidratasse. Tivemos uns 9km de descida e tudo que desce
tem que subir, então, subimos, subimos, mal percebia...
fomos juntos até o 21,5 km... em 2hs03min incríveis!!
Estava bem até que no 25km percebi que estava cansada;
no 28km senti que estava BEM cansada e aí comecei a
me incomodar com tudo; boné, óculos, tênis,
relógio, pé, joelho. A máquina dando
sinais de pane, mas me imaginava cruzando a linha de chegada,
orgulhosa de ter ido em frente, então continuava, mas
meus pensamentos mandavam que eu caminhasse. Como é
difícil tomar a decisão, continuava. Decidi
começar a caminhar no 30km, após beber água
comecei a caminhar. Devia aparentar cansaço, pois as
pessoas passavam por mim e diziam: “- Vamos lá
Brasil! Força!”
No 32km um policial parou de moto e perguntou se queria carona.
Pode?! Disse a ele que iria continuar e ele respondeu que
eu era uma mulher de coragem. Incrível como este comentário
impulsionou-me a continuar, então as dores começaram
e eu queria muito continuar, não tinha escolha. Corria...
Caminhava... Mas, não tinha pensamento de cruzar a
linha de chegada que me animassem; uma briga entre meu corpo
e minha mente e então continuava caminhando. Pensava:
“Não tenho escolha, parar nem pensar!”.
No 35km resolvi tomar um analgésico e um BCAA, mais
uma jujuba, para tirar o gosto ruim da boca. No 37km percebi
que faltavam 5. SÓ 5km!
Por volta do 38km, ouvi gritarem “Vai BRASIL!”.
Era um casal que havia terminado a maratona, percebi quando
vi a pulseira preta no pulso deles. Acenei e com um pouco
mais de energia senti minhas passadas recomeçarem,
um pouco a frente o mesmo casal passa por mim e oferece água
e banana, acho que eles perceberam que eu estava no meu último
“gás”, agradeci e continuei. As dores tinham
sumido, bebi água e descartei a banana, não
conseguia pensar em comer, só queria correr e terminar
logo com aquilo. Mais 2km a frente, novamente, o casal aguardava
para dar seu último grito de força! “Aí
BRASIL!!!”, agradeci a força com o gesto das
mãos unidas. A união dos corredores, a força
que impulsiona e energiza... cruzei por um corredor e o puxei...
SÓ faltam 1,5km!
Ele ficou e eu continuei. O povo começou a aplaudir,
o peito enche de emoção, as lágrimas
dão sinal, você controla tudo, pois não
pode perder o foco, tem medo de pisar torto, errar, calma!
Calma e garra, sorriso e lágrima. Falta 1km... corro
de cabeça baixa, o ombro pesa. Faltam 200 metros escuto:
“É DO BRASIL!!!!”. Minhas lágrimas
e meu sorriso querem explodir, levanto a cabeça. “É
O Nº 52...” Sorrio... “É ANDRÉA
SARUBBI!”. Vejo o Mizu aproximar, aceno, ouço
de novo: “BRASIL!!!!”. Abro os braços,
cruzo a linha de chegada, numa explosão de mim, beijo
o chão e grito: “Eu consegui!!!!”
Se fisicamente não estava tão
bem preparada minha vontade determinou que sim.
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