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Ultramaratona vira palco de teste científico - 11/04/2010


Matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo fala de experimento em ultramaratonista.

Ultramaratona vira palco de teste científico

Ex- atleta olímpico serve de cobaia em experimento para descobrir limites do corpo em corrida de 254 km no Deserto do Saara.

O ex-remador olímpico inglês James Cracknell, de 37 anos, serviu de cobaia na semana passada para um experimento científico cujo objetivo é compreender como o corpo reage sob condições extremas. Sob o comando do fisiologista Simon Wickes, cinco especialistas monitoraram Cracknell na Maratona das Areias, no Marrocos - uma ultramaratona de 254 km disputada em seis dias no Deserto do Saara, onde as temperaturas chegam a 49°C.

Durante a prova, considerada a mais difícil do planeta - cada atleta correu o equivale a seis maratonas -, Cracknell usou um sistema de "monitoramento vital", uma versão incrementada de um monitor de batimentos cardíacos. Além de proporcionar uma leitura dos batimentos em forma numérica, ele oferece o traço de eletrocardiograma (que mapeia a atividade elétrica do coração no tempo e alerta para anomalias potenciais) e mede a temperatura na superfície da pele.

Outros controles ajudaram a medir o desgaste sofrido pelo atleta. Cracknell engoliu um comprido de rádio, que agiu como um termômetro interno, fornecendo leituras contínuas de sua temperatura - que poderia ser captada por um monitor de sinais vitais fixado com uma tira em seu tórax.

No início e no fim de cada dia, a equipe testou o conteúdo da água na urina de Cracknell para medir o seu grau de desidratação. Um teste de vareta de nível da urina procurou anormalidades, como a presença de proteínas - um primeiro sinal de trauma ou mau funcionamento do corpo.

Eles também pesaram Cracknell diariamente para ver quanta massa corporal ele perdeu com a transpiração. "Ele transpira uma barbaridade - bem mais que uma pessoa normal", disse o fisiologista Wickes. "Recentemente, James fez um teste de aclimatação térmica durante cinco dias e, numa sessão de uma a duas horas de duração, perdia de quatro a cinco quilos de peso corporal."

Novato. Essa característica foi um problema, porque a água era estritamente racionada durante a corrida. Mesmo no estágio noturno, sem parada - em que percorreram 80 quilômetros -, os competidores não receberam mais de 22,5 litros para os dois dias.

Água foi a única coisa que os competidores não levaram com eles para durar a corrida toda. Em vez disso, pegaram garrafas de 1,5 litro em pontos regulares de inspeção. Uma regra estrita da Maratona das Areias é que os competidores devem carregar todo o resto do que precisam, incluindo comida, roupas, saco de dormir, equipamento de cozinha, espelho de sinalização, bússola, lanterna e apito.

O ex-remador (medalha de ouro em Sydney-2000 e Atenas-2004 na categoria quatro-sem) ainda é um novato em ultramaratonas. Com 1,90 metro de altura e 93 quilos, Cracknell não tem um físico apropriado para uma corrida de longa distância. Mas não esconde o gosto por desafios extenuantes.

Depois da sua aposentadoria, em 2005, Cracknell já caminhou 757 quilômetros até o Polo Sul e atravessou a nado o Estreito de Gibraltar. Casado com uma apresentadora de TV, ele é muito popular na Grã-Bretanha.

Mente vencedora. Embora o desgaste físico ao longo da prova concentrasse boa parte do experimento, Cracknell também permitiu o acesso da psicóloga Paula Brown ao funcionamento de sua mente.

Antes da corrida, ela o submeteu a uma bateria de perguntas para avaliar como ele via a competição, o que revelou seus instintos competitivos particularmente agudos. "Eu sempre sinto que tenho de ganhar em tudo" foi uma das frases ditas por Cracknell.

Por comparação, a equipe de Wickes fez o mesmo teste psicológico com o ultramaratonista marroquino Mohamad Ahansal - tricampeão da prova, incluindo as duas últimas edições - e descobriu uma coisa interessante. "A natureza competitiva de Mohamad é muito baixa - se ele dá o melhor de si e alguém o vence, ele pensa "bom para ele", o que não é o caso de James", disse Wickes. "Ele faria uma autocrítica rigorosa sobre o que poderia ter feito melhor. Ele refaria a corrida em sua mente. Ele não gosta de perder."

Mesmo sem experiência nesse tipo de competição, o ex-remador olímpico completou ontem a ultramaratona em um honroso 12.º lugar entre 1.050 competidores, com um tempo total de 25 horas e 39 minutos. Cracknell correu a uma velocidade média de 9,7 km/h.

O resultado do experimento científico será revelado em agosto, num documentário do Discovery Channel.

 

 



 
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