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A utilidade das estatísticas

12/02/2004, por Marcel Trinta

 

A matéria a seguir é mais uma que faz parte da troca de informações entre a Corpore e AIMS (Associação Internacional de Maratonas e Corridas de Rua). Dessa vez veremos a importância e o que se pode tirar dos dados coletados nas corridas através dos tempos.

Há muito nós falamos do crescimento das corridas no Brasil, em especial em São Paulo, com base nos números dos eventos e ações da Corpore. Essa matéria mostra, através de dados internacionais, quanto é contundente esse crescimento e que conclusões podemos tirar.

Obviamente, existem peculiaridades próprias nos eventos nos EUA e Europa, como por exemplo, os corredores “caridosos”, onde o corredor corre em favor de uma causa como, por exemplo, levantar fundos para a luta contra o câncer, caso do Leucemia Team, ação sem similar no Brasil.

A matéria foi escrita pelo Dr. David Martin, que esteve conosco em novembro no congresso da AIMS no Brasil. Ele é o responsável pelas estatísticas da AIMS e através delas veremos números significativos que mostram que a atividade é crescente em todo o mundo, mais na forma de comportamento do que como esporte competitivo.

Boa Diversão !!!


Além do que os olhos vêem

Existem basicamente três tipos de pessoas que buscam os resultados de corridas:
- as que correm e procuram apenas seu próprio tempo e posição;
- os que checam os resultados para ver como se saíram os amigos ou apenas para descobrir o vencedor;
- os diretores de provas, que vêem os resultados com outros olhos, como dados estatísticos.

Os gráficos e estatísticas dos participantes, principalmente dos que terminaram a prova, são muito úteis para os organizadores das provas.

Se analisarmos os dados estatísticos nos colocando no lugar do diretor de uma grande prova, uma das primeiras coisas que notamos é que ao mesmo tempo em que o número de corredores que terminam as maratonas vem aumentando ao longo dos anos, a grande maioria deles demoram mais para terminar a corrida enquanto os vencedores diminuem seus tempos.

Isso pode ser mostrado de diversas formas. A figura 1 mostra um gráfico dividido em períodos de 30 minutos para os atletas que terminaram a Maratona de Nova York nos anos de 1982, 1992 e 2002.
Figura 1A: Tempo dos finalistas na Maratona de Nova York (82, 92, 02)


Em 1982, o maior grupo de atletas fez a prova entre 3h30 e 4h. Em 1992, a maioria terminou entre 4h e 4h30. E em 2002 o aumento foi maior e o tempo de término para a maioria dos participantes ficou entre 4 e 5 horas.

Outra forma de analisar esses dados é vendo a porcentagem de atletas que conseguiram terminar a prova nos mesmos períodos de 30 minutos

No quadro 1B podemos perceber que em Nova York, 70% dos corredores terminaram a prova em menos de 4 horas em 1982, em 1992 o número caiu para 45% e em 2002 foram apenas 27,5%.

Mas a pergunta que surge é por que os corredores da massa estão ficando mais lentos enquanto a elite fica mais rápida? Uma das explicações é de que há dois novos grupos de corredores entre as massas e esses grupos vêm crescendo.

Com a presença cada vez maior nas grandes maratonas como a de Nova York e Londres, esses grupos estão mais voltados para a participação do que competição. O primeiro grupo, o dos “turistas”, é formado por pessoas que treinam e têm interesses e recursos financeiros para viajar pelo mundo e correr maratonas nessas cidades.

Já os “caridosos” correm para levantar dinheiro para todas as causa, desde a leucemia até pesquisas para curar distrofias musculares. Nenhum dos grupos tenta ser rápido, pois essa não a sua proposta principal. Eles só querem chegar ao fim da corrida

Figura 1B: Tempo dos finalistas nas maiores maratonas

Além da participação desses grupos (que varia entre as maratonas), outros fatores influenciam no tempo da prova, fazendo de cada prova uma entidade única. A tabela 1B mostra que fatores como a temperatura, umidade e o clima festivo levam a um término muito mais lento, como aconteceu em Honolulu em 2002.

Cabe aqui também explicar o porque da maratona de Boston de 1982 ter 100% dos atletas terminando a prova em menos de 3h30. Nesse ano, a corrida foi arbitrariamente considerada acabada depois de 3h30 e o tempo foi parado, contando como o tempo final para todos corredores.

Como existiam provas classificatórias para participar da prova, a maioria dos corredores realmente havia cruzado a linha de chegada em 3h30. O tempo final foi estendido para 4h em 1984, 4h30 em 1987 e 5h em 1990.

Apenas quando a corrida comemorou o seu centenário em 1996 – com a participação de qualquer atletas e com o tempo final em aberto – ela conseguiu seu recorde de atletas que terminaram a prova, com 35.868 atletas.

Outra forma de utilizar dados de maratonas é para examinar as mudanças no nível dos maratonistas em cada país.

Cinco exemplos são apresentados: na figura 2A vemos o aumento de corredores quenianos que fazem maratonas abaixo das 2h20 nos últimos 20 anos em comparação aos etíopes; na figura 2B vemos o declínio da performance de corredores britânicos e americanos com tempo abaixo de 2h20; na figura 2C vemos a regularidade dos corredores japoneses nesse mesmo período. As causas para as mudanças são difíceis de identificar, mas sem esses gráficos essas mudanças talvez nem seriam observadas.

2A: Tempo abaixo de 2h20 entre Quênianos e Etiopes
(1983-2002)
2B: Tempo abaixo de 2h20 entre Americanos e Britânicos
(1983-2002)

2C: Japoneses com tempo abaixo de 2h20
(1983-2002)

Uma terceira vertente é usar essas estatísticas para prever o futuro. Por exemplo, a figura 3A mostra o número total de atletas homens que fizeram suas provas em tempo inferior a 2h20 e mulheres em 2h55 desde 1970.

Atualmente, existem cerca de 1100 homens que conseguem fazer maratonas abaixo desse tempo por ano e esse número é constante desde 1983 – quando as corridas nas metrópoles se tornaram mundialmente populares. A participação feminina ficou atrás da masculina durante alguns anos, mas aumentou consideravelmente após a primeira Maratona Olímpica Feminina em Los Angeles em 1984. Enquanto o número de homens atingiu uma regularidade, a participação feminina continua a subir.

A figura 3B mostra as melhores performances masculinas e femininas a cada ano desde que a distância da maratona foi definida como 42.195 m em todo mundo.

Isso trás uma questão: “Quão rápido uma maratona pode ser corrida?”. Para responder isso, em 1999, esse conjunto de dados foi analisado detalhadamente para poder se prever quando um homem correria abaixo de 2h e a mulher de 2h20.

3A: Homens abaixo de 2h20 e mulheres abaixo de 2h55
(1970-2002)
Melhores performances masculina e feminina
(1924-1999)

A equação desenvolvida para as mulheres preveu que a quebra aconteceria em 2000. No dia 30 de setembro desse ano, Naoko Takahashi fez a Maratona de Berlim em 2:19:46. Para os homens a equação prevê que a marca de 2h será quebrada em 2015. Será que isso ocorrerá? É só ver para crer.

Corpore e as estatísticas


Na Corpore as estatísticas são bastante utilizadas, principalmente para a manutenção do Ranking Corpore. O responsável por isso é o Secretário Geral da entidade, Edgard José dos Santos.

Edgard dos Santos

Com os dados estatísticos que a Corpore tem, está se tornando possível, inclusive, saber o tempo aproximado que cada equipe terminará a prova: “Cito o exemplo da prova de Ilhabela 2002, em que o detalhamento rigoroso de cada trecho, o tratamento das informações sobre performance de cada um dos atletas, a altimetria do percurso, etc, permitiram que nossa previsão praticamente batesse com a realidade. Em uma prova que se iniciou às 5:30 e terminou às 17:00 horas, previmos que a última equipe cruzaria a linha de chegada às 16:57. Três minutos depois ela o fez. Erro desprezível no contexto. Em cada um dos 17 trechos, obtivemos esta mesma precisão”, afirma Edgard.

Confira também as estatísticas do crescimento dos associados e de participação nas provas Corpore, o que comprova o desenvolvimento e a procura por esse esporte no país.



Texto: David Martin
Fonte: Distance Running




 
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