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Minha História - Ana Claudia Ramalho

23/07/2004, por Corpore

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Ana Claudia Ramalho - corredora associada e médica endocrinologista em Minha História


Tenho 37 anos, sou médica, endocrinologista, maratonista e portadora de diabetes tipo 1 há 21 anos. Na época do diagnóstico do diabetes me preparava para o vestibular de psicologia. Frente ao novo fato, resolvi persistir na opção profissional já feita anterior ao diagnóstico; mas no ano que se seguiu foi aumentando o meu interesse pelo melhor conhecimento da doença e não hesitei em prestar um novo vestibular e assumir que a idéia de estudar e entender melhor o que se passava comigo poderia ser o grande impulso de minha opção profissional.

Desde menina, sempre fui estimulada a desenvolver uma atividade física como parte do quotidiano para meu desenvolvimento; inicialmente dança, natação, tênis e posteriormente o ballet clássico que me envolveu durante 11 anos. Aos 16 anos tive o diagnóstico de diabetes mellitus e uma insulinização desordenada me levou a um aumento de peso e ao desinteresse pelo ballet, pois sentia que no domínio da dança já não havia mais um espaço para mim. Completamente desmotivada, passei a apreciar a corrida que já realizava anteriormente em algumas oportunidades com meu pai que praticava há vários anos. Corríamos juntos e pouco a pouco fui redescobrindo as potencialidades de meu corpo mesmo ressentido por uma doença crônica; aí veio o prazer de correr, uma paixão que me equilibra tanto física quanto moralmente. Correr não exige muitas coisas: não importa o lugar, não precisa de uma companhia, não exige trajes sofisticados; só precisamos sim, de um adequado par de tênis. É essa simplicidade da corrida que faz com que ela se torne um vício. Eu tento escolher lugares com um bom estímulo visual: um parque, um jardim, à beira mar... este contato com a natureza me recompensa o esforço físico.

Ao longo dos anos fiz da corrida meu equilíbrio psicológico. Comecei a correr as pequenas corridas de 6, 10, 14 Km. Em São Paulo, participei de várias corridas da CORPORE. Na academia de ginástica éramos um grupo de amantes da corrida e nos encontrávamos para corridas no parque Ibirapuera. Assim, pequenos estímulos se transformavam para mim em grandes estímulos de superar a mim mesma. Com a corrida evito doses altas de insulina e, portanto, evita um aumento do peso como ocorreu no início da doença e que me levou à uma perda da minha imagem corporal.

Em 1997, morei em Paris para realização do meu doutorado. Nesta oportunidade comecei a correr todos os dias e não importava a estação do ano; corria no parque Montsouri com os lagos congelados; era maravilhoso! Procurava trabalhar melhor minha resistência em terrenos acidentados com grandes ladeiras. Final de semana procurava fazer um pouco de turismo por parques que desejava conhecer, sempre correndo e assim fazia percursos mais prolongados; senti que minha resistência melhorava e resolvi me inscrever na maratona de Paris para correr apenas a metade ou seja 21 Km. Me preparava diariamente correndo.

Com a rotina das corridas as hipoglicemias se tornaram frequentes e tive que mudar meu esquema de insulina. Cada indivíduo com diabetes deve fazer uma adaptação do seu tratamento após o início da atividade física, principalmente naqueles que usam insulina. Este reajuste depende de algumas particularidades: horário, intensidade e frequência da atividade física, ingestão de carboidratos, etc.

Na França existem associações de esporte e diabetes que estão constantemente desenvolvendo eventos esportivos para estimular os diabéticos. Eu era associada à Associação Francesa de Diabéticos (AFD) e a Associação de Sport e Diabetes (ASD). Resolvi então, entrar no grupo de diabéticos da AFD para correr a maratona de Paris em 1998. Éramos 12 diabéticos. Nos reunimos anteriormente para sermos orientados sobre o esquema de controle. A cada 5 Km após o Km 10 havia um posto de controle da AFD com médico, enfermeira e todo material para controle da glicemia, reposição hídrica e de carboidrato; essa estrutura nos dava uma segurança e podíamos compartilhar e entender melhor o comportamento da nossa doença frente a uma atividade física extenuante. Cheguei ao Km 20 onde havia me proposto parar, mas eu me sentia em plena forma, cheia de energia e segura com toda aquela estrutura para diabétcos.

Durante o percursso minha glicemia foi baixando mesmo com a ingesta de 15-20g de carboidrato a cada 5 Km. No Km 40 tinha hipoglicemia, mas não sentia, pois o exercício físico pode embotar a percepção de uma hipoglicemia. Neste ponto percebi a diferença de ter uma doença crônica em um país que tem uma consciência social e procura integrar todos os cidadãos em suas atividades! À partir deste ponto até a chegada fui acompanhada por um enfermeiro que me seguia numa bicicleta com a reposição de carboidrato necessária e sempre me estimulando. E enfim, lá estava eu, chegando, a única mulher diabética correndo pela AFD após 5 horas de corrida. Era a maior vitória de superação de meus limites. Não era simplesmente completar uma maratona, era perceber-me com um potencial de superar os limites da própria doença.

Percebi claramente que o trabalho de apoio da AFD e a estrutura montada foram decisivos. Percebi como é importante para o diabético programas de incentivo e apoio ao desenvolvimento de atividade física e voltei com esta idéia em minha cabeça: criar uma associação de incentivo ao exercício físico e diabetes, não apenas em teoria, mas sim com a prática como vivenciei. Depois da maratona ainda fiz outras corridas menores em Paris; minha vontade era de não parar mais.

De volta ao Brasil, entrei num grupo de corredores em Salvador e participei de várias corridas de rua aqui e em outros estados. Nessas corridas tive a decepção de perceber que não existe uma mínima estrutura para os diabéticos, nem glicosímetro nos postos médicos !!! Ou seja se um diabético estiver correndo e precisar de uma glicemia capilar não pode realizar, a não ser que faça como eu, ou seja, leve consigo seu glicosímetro e realize por si mesmo durante a corrida. E é isso que tenho feito nas provas de rua no Brasi.

A monitorização da glicemia capilar durante a atividade física é de fundamental importância para que possamos verificar as diferentes variações glicêmicas ligadas aos diferentes exercícios. Assim, já observei que uma corrida longa num ritmo mais lento tende a reduzir os níveis glicêmicos já durante o percurso, porém corridas de distâncias mais curtas (< 10 Km) em velocidade mais elevada, elevam a glicemia de forma imediata, pois estão ligadas à liberação de adrenalina; nestes casos a queda dos níveis glicêmicos ocorrerá na noite do dia da corrida. Essas observações só são possiveis com a auto-monitorização.

A experiência vivida que me possibiltou um auto-conhecimento da minha resposta glicêmica tornando possível continuar correndo maratonas no Brasil, como a de Porto Alegre e Curitiba.

Frente a esta experiência tão positiva, comecei a trilhar caminhos para colocar este tipo de apoio em corridas de rua no Brasil. Em 2003, criei o departamento de exercício da Sociedade Brasileira de Diabetes para podermos apoiar exercício e diabetes no Brasil para os indivíduos com diabetes. Colocamos pela 1ª vez no Brasil este suporte em uma corrida de rua no Brasil, na maratona de revezamento pão de Açúcar e isso foi divulgado conforme foto do jornal ao lado. É fundamental que o atleta com diabetes conheça sua resposta glicêmica ao esforço e quais as adaptações necessárias ao tratamento antes, durante e depois da corrida. Com este tipo de apoio fica bem mais fácil, pois além do glicosímetro, a presença de endocrinologistas que auxiliarão nas adaptações necessárias.

Além do departamento de exercício da SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes), criei em 2003 a DESA-Brasil (Diabetes Exercise and Sport Association). A DESA tem como objetivo: melhorar a qualidade de vida de pessoas com Diabetes através da atividade física. A DESA fornece: conferencias, jornais, website, apoia eventos esportivos, coloca em contato pessoas com diabetes e praticantes de exercício.

A DESA foi fundada em 1986 por Paula Harper como IDAA (International Diabetes Athletic Association) e em 2000 passou a ser DESA (Diabetes Exercise and Sport Association) com objetivo de abraçar não só atletas, mas também as pessoas que fazem exercício. Paula Haper (foto ao lado) é americana tem mais de 60 anos, é maratonista (Já correu mais de 30 maratonas!), enfermeira e portadora de Diabetes tipo 1 e me incentivou bastante a criação desta associação aqui no Brasil.

Enfim, no momento contamos com a DESA e o departamento de exercício da SBD para darmos suporte aos atletas com diabetes, além de oferecer cursos para os profissionais de educação física sobre exercício e diabetes, visando preparar melhor este profissional a trabalhar com o atleta com diabetes na corrida e em outras modalidades esportivas.

Você que tem diabetes, comece pouco a pouco uma atividade física, não importa qual, mas que te dê mais prazer; use e abuse dela, criando metas, se impondo pequenos desafios e assim descobrindo as potancialidades do seu corpo que te reequilibrarão metabólica e psicologicamente.

Atletas com Diabetes vamos participar das corridas, pois as corridas da CORPORE agora terão apoio para os atletas com Diabetes !

Ana Claudia Ramalho
Endocrinologista, Corredora e Diabética tipo1
Coordenadora do departamento de exercício da SBD - Sociedade Brasileira de Diabetes
Fundadora e Presidente da DESA-Brasil
Associação de Exercício Esporte e Diabetes

 

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