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Minha História - Sebastião Araujo da Costa Jr. (Sebas)

10/08/2004, por Marcel Trinta

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Exclusivo para Associados Corpore

Sebastião Araujo da Costa Jr.- corredor associado Corpore em Minha História

Para todos aqueles que, mesmo me chamando de louco, nunca me negaram apoio e incentivo.

Como diria o Washington Olivetto, a primeira Comrades a gente nunca esquece!

Numa tarde de domingo de agosto do ano passado, jogava conversa fora com o Jair Ferrari (amigo do peito, de longa data e das horas boas e ruins) quando ele soltou o seguinte comentário / desafio: “O Sr. Bush completou a Comrades em 11:58. Acho que dá para nós fazermos a prova. Vamos?”. Na hora, não respondi. Preferi consultar as bases (Sonia, minha mulher, eterna namorada e responsável pelo que sou e consegui nos últimos 31 anos). Ainda naquela semana, a resposta: “Jair, se você for, eu também vou!”.

Conversamos com nossos técnicos (ele com a Suely Braz, da Antílope e eu com o Danilo Balu, da Ação Total). Fiz novo ergoespirométrico com o Dr. TB do CEMAFE e uma consulta com a Sandra Ribeiro, nutricionista que havia assessorado o grupo que fez a prova em 1.999. Tudo em ordem, começamos os treinos, com aumento lento e gradual do volume, dieta com 7 refeições por dia e musculação, muita musculação.

Em fevereiro deste ano, fizemos a Super Maratona de Rio Grande / RS, com seus 50km e um vento contra de dar saudades da subida da Biologia na USP. Na volta, decidimos nos incorporar ao grupo que estava treinando para a Comrades sob a orientação do Prof. Branca (Branca Fitness). O volume de treinos aumentou consideravelmente (os longos passaram a ser de, no mínimo, 30km) e uma novidade. Aprender a correr e caminhar. Conforme me disse um dia o Alfredo Donadio (Corpore), na Comrades se corre, mas também se anda ... e é preciso que seja rápido.

Cumprindo a programação e as orientações do Branca, fomos para Amparo enfrentar a dificílima Maratona das Águas. E com ela veio o primeiro susto. Aquela dorzinha que todo corredor tem e acha que vai passar, acabou pegando forte no meu joelho esquerdo e eu simplesmente não conseguia correr nas descidas após os 30 km. Terminei a prova correndo e caminhando em 4:36 e com uma séria dúvida, será que vai dar?

Consultei o Dr. Alfonso Apostólico (ortopedista dos melhores) e veio a triste constatação: “A contusão é séria e se você não cuidar, esqueça a Comrades”. Conversei de novo com o Branca (sempre ele!), reduzimos o ritmo dos treinos por duas semanas e comecei longas e chatíssimas sessões de fisioterapia. E tome aplicação de gelo em casa e no escritório.

O próximo passo foi o treino de 60 km, nas Rodovias Trabalhadores e Carvalho Pinto. Sob o sol de rachar e com subidas e descidas que não sentimos de carro, fui bem até o 35º km, mais ou menos. E lá estavam de volta a dor no joelho esquerdo e o travamento do movimento da perna nas descidas. Para não agravar a situação, decidimos parar o treino nos 40km e continuar com a dúvida. Será que vai dar?

Recuperado, partimos para nova tentativa dos 60 km, aproveitando a estrutura da Maratona de São Paulo, no dia 02/05. Começamos a correr duas horas antes no Parque do Ibirapuera e, quando foi dada a largada oficial da prova, entramos no final do pelotão, já com aproximadamente 18 km nas costas. Felizmente, deu tudo certo e completei o treino em 7 horas, sem dores, nem enjôos (este era um outro problema nas provas e treinos longos, mas a Sandra conseguiu resolver). Agora vai dar, tem que dar!

E chegou o dia da viagem. Fiz escala de um dia em Johannesburg e aproveitei para conhecer um pouco da cidade e Soweto, local símbolo da luta pelo fim da segregação racial na África do Sul. As imagens guardadas em um museu e o que representa o Nélson Mandela para o povo sul africano são impressionantes. Certamente a falta dessa liderança incontestável causará uma comoção no País.

No dia 13/06 nos encontramos em Durban, local da largada da prova, que neste ano seria em subida, ou “up run”, como dizem por lá. Adauto de Paiva (cavalo puro sangue, novo recordista brasileiro da prova), Danilo Jabá (acreditem, cearence alto, forte, cadeirudo – bundão mesmo, existe e corre, como corre!), Nato Amaral (grande capitão da equipe e dono de um coração do tamanho de seus mais de 1,90m de altura) e Antenor Sakamoto (sem dúvida, o mais extrovertido de todos nós e sua incrível e exemplar família – Dona Rosa e suas filhas, Fernanda e Bina – ótimas companhias e apoio). Lá conheci o André Arruda, de Campinas (figuraça, com seu ótimo humor e sotaque caipira digno de Piracicaba!) e o Fiori (um bravo que superou a contusão no tendão de Aquiles e as dificuldades da prova) e suas respectivas esposas. Enfim, éramos 12 brazucas para enfrentar os 87 km da Comrades 2004, 7 corredores e 5 pessoas no fundamental apoio.

Na segunda-feira, 14/06, fizemos de ônibus o reconhecimento do percurso e aproveitamos para aprender um pouco dos segredos da prova com o nosso guia, Peter e suas 24 Comrades nas costas e as seqüelas em seus dois joelhos. Minha primeira impressão não foi nada agradável, pois tudo me pareceu mais difícil do que imaginava. As subidas eram mais íngremes e as descidas mais longas do que pareciam no mapa com perfil altimétrico que pendurei em um quadro à frente da minha mesa de trabalho para memorizar e me acostumar com a idéia. Das recomendações do Peter, duas registrei e segui à risca: 1. Tenha sempre um plano “B”, para o caso de sua estratégia de prova falhar; e 2, se sentir cansaço, dores e vontade de desistir, descanse e alongue uns 30 minutos antes de embarcar no ônibus de resgate, pois a partir daí não há mais volta. Segundo ele, já cansou de ver atletas que 5 minutos após o resgate, constatam que poderiam retomar a prova, o que absolutamente não é permitido pelo regulamento. A sensação de arrependimento e de frustração ficam estampados no rosto de cada um!

Durante a viagem, visitamos o muro onde estão as placas que registram os atletas que já realizaram a prova e uma escola para crianças órfãs e deficientes que cantaram várias músicas em nossa homenagem. Para dizer pouco, foi uma grande lição de vida para todos nós.

De volta ao hotel, defini meus planos para a prova. Plano “A” – 7min/km, 10:15 no total e controle do tempo a cada 10 km. Plano “B” – 10:45, contando os 30’ para descanso e alongamento recomendados pelo Peter. Plano “C”, chegar dentro do limite das 12:00hs. Pedir resgate, nem pensar, só em último caso ... Fui dormir ouvido o ronco das reduzidas da caixa de câmbio do ônibus para vencer as subidas, principalmente as denominadas “Big Five”.

No dia anterior à prova, fomos pela última vez ao Pavilhão de Exposição, encomendamos a placa em homenagem ao Sr. Bush e, mais uma vez, almoçamos massa com molho napolitano e Alfredo (6 grandes porções, divididas em 4 brasileiros famintos). O Nato aproveitou para acertar um pequeno problema administrativo. Nosso uniforme tinha o logotipo da prova (outra homenagem ao Sr. Bush), o que não é permitido. Após uma conversa com o árbitro principal da prova, o uniforme foi liberado apenas para este ano.

Jantamos massa (de novo!), fizemos os últimos preparativos (números na camiseta, chip, etc) e fomos dormir cedo, todos preocupados com o Jabá, que estava com dores de garganta e febre. Acordei às 3:00hs, tomei um café reforçado e uma ligação para casa (“So, chegou o dia, estou indo!”. A resposta não poderia ser melhor: “tenha juízo, vá com calma, você tem 12 horas para fazer a prova. Um beijo”).

Fomos para a largada e antes de irmos cada um para a sua baia, nos abraçamos e combinamos nos encontrar, com saúde, no final da prova. Agradecemos a todos que nos apoiaram, gritamos BRASIL e fomos em frente.

Pontualmente às 5:30hs, ouvimos o galo cantar e o tiro de canhão que marcam o início da Comrades. Estava escuro, a temperatura baixa, mas agradável e muita gente torcendo e nos desejando boa sorte. Parte dos torcedores, é verdade, estava lá também para receber os agasalhos que os corredores, após a largada, jogam ao lado da estrada. Depois de alguns km, entreguei minha camiseta de manga comprida para uma senhora que, de mãos postas, agradeceu quase que de joelhos.

Corri “tranqüilo” até o km 30, onde cheguei cerca de 13 minutos antes do previsto e esta reserva de tempo foi importante para administrar o cansaço no final. Fui alcançado pela Stephany, amiga australiana do Nato que, pelas minhas contas, deveria estar bem à minha frente. Corremos e andamos alguns km juntos, mas como ela corria demais nas descidas, após a terceira, achei melhor deixá-la seguir do que arriscar a me machucar. Após alguns km., a encontrei novamente, mantendo um ritmo bem mais lento em função de enjôos. Completei a maratona em 4:25 e me sentindo muito bem, aí já intercalando corrida e caminhada nas subidas.

A organização da prova é excelente, com inúmeros postos de abastecimento com água, isotônico e coca cola, além de outros com batata, bolachas, banana e maçã e, principalmente, massagens (parei umas 3 vezes para aliviar os princípios de câimbras). A torcida é um capítulo à parte. Presente em todo o percurso, estimula os corredores de maneira fantástica e, aos estrangeiros, dedica maior atenção, ora gritando o nome do seu País, ora agradecendo pela presença. E, mais uma vez, ouvir o canto das crianças da escola foi emocionante.

A partir de Inchanga (esta subida e os dois Poly Shorts, um pouco mais à frente, simplesmente não existem. Você aparentemente está no limite de suas forças e elas parecem não acabar nunca!), passei a somente andar nas subidas e a correr nos trechos planos (se é que existem!) e nas descidas. Lembro-me de perto do km 70 ter feito 4´:40”/km em alguns trechos, sem saber de onde vinha a força para tal ritmo.

Faltando 5 km para a chegada, passei a carregar a bandeira do Brasil que meu filho Marco havia posto em minha bagagem. A entrada no estádio, com as pessoas batendo com as mãos nas placas e gritando “run, run,run ...” e “Brasil, Brasil ...”) é emocionante e indescritível. De lembrar, arrepia!

Quase 2.000 km de treinos depois, completei a Comrades, pela cronometragem oficial, em 10hs:16min (no meu cronômetro, 10:13). Deu Plano “A”, na mosca!!!

Com muito orgulho, levantei a bandeira brasileira para a foto da Bina Sakamoto, recebi a medalha e fui comemorar com os demais que já haviam chegado. E todos ficamos aguardando e torcendo para que o Sakamoto chegasse também a tempo de receber sua medalha de bronze. Quando ele cruzou o último tapete abaixo de 11 horas, a festa foi total. Todos os brasileiros chegaram e conforme combinado na largada, com saúde.

Nossa equipe, como já mencionei, correu em homenagem ao Sr. Gustav Bush que, para todos os que o conheceram, foi um exemplo de pessoa e de atleta. Particularmente, corri pelos meus pais (se estivessem por aqui, certamente estariam orgulhosos por eu ter completado a prova e participado da equipe brasileira); pelos meus filhos, Théo e Marco, ótimos meninos e que nos dão muitas alegrias; pelos meus sogros, que há pouco descobriram os benefícios e os prazeres da prática esportiva; pela minha irmã e meus sobrinhos; e pelo Jair que, em função de um tombo e uma fratura no pulso 15 dias antes da prova, não pode viajar conosco.

So, obrigado por tudo. Você correu comigo desde o primeiro treino até o último km da Comrades. Um beijo.

A todos os que aqui mencionei, aos meus amigos e parentes, muito obrigado pelo incentivo e pelo apoio que nunca me faltaram e que foram fundamentais para que eu chegasse lá. Branca, você e sua equipe foram demais, valeu!. Miguel e Edu, da High Jump, vocês também estiveram comigo. Milton Mizumoto, a reunião da equipe naquele sábado à tarde e suas recomendações foram decisivas. Obrigado.

Agradeço também aos meus sócios (Zé Paulo, João – obrigado pelas milhas – e Roberta) e colegas de escritório (Moutinho e Tranchesi Advogados) que me agüentaram falando dos treinos e da prova desde o ano passado, especialmente à Dona Giorgina e a Kita pelos lanches, Ana e Márcia pelas consultas médicas e controle dos horários.

A todos que sonham um dia participar de uma ultra maratona, essa é a prova. Jair, Alberto, Carlos Souto e Luiz, que apesar do esforço não puderam participar, não desanimem e retomem os treinos. O próximo ano será de vocês.

16 de junho de 2.004. A minha primeira Comrades jamais esquecerei.

Seba - Sebastião Araujo da Costa Jr.

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Por: Marcel Trinta

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