| Voltar
para Menu das Histórias de Corredor |
|
*Texto
de no máximo 4 mil caracteres [ou duas
(02) páginas]
**máximo cinco (05) Imagens em JPEG - resolução
150 DPIS
OS TEXTOS SERÃO REVISADOS E EDITADOS SEGUNDO
CRITÉRIOS DE REDAÇÃO CORPORE.ORG.BR
Exclusivo para Associados Corpore |
Sebastião
Araujo da Costa Jr.- corredor associado Corpore em Minha
História
Para
todos aqueles que, mesmo me chamando de louco, nunca
me negaram apoio e incentivo.
Como
diria o Washington Olivetto, a primeira Comrades a gente
nunca esquece!
Numa
tarde de domingo de agosto do ano passado, jogava conversa
fora com o Jair Ferrari (amigo do peito, de longa data
e das horas boas e ruins) quando ele soltou o seguinte
comentário / desafio: “O Sr. Bush completou
a Comrades em 11:58. Acho que dá para nós
fazermos a prova. Vamos?”. Na hora, não
respondi. Preferi consultar as bases (Sonia, minha mulher,
eterna namorada e responsável pelo que sou e
consegui nos últimos 31 anos). Ainda naquela
semana, a resposta: “Jair, se você for,
eu também vou!”.
Conversamos
com nossos técnicos (ele com a Suely Braz, da
Antílope e eu com o Danilo Balu, da Ação
Total). Fiz novo ergoespirométrico com o Dr.
TB do CEMAFE e uma consulta com a Sandra Ribeiro, nutricionista
que havia assessorado o grupo que fez a prova em 1.999.
Tudo em ordem, começamos os treinos, com aumento
lento e gradual do volume, dieta com 7 refeições
por dia e musculação, muita musculação.
Em
fevereiro deste ano, fizemos a Super Maratona de Rio
Grande / RS, com seus 50km e um vento contra de dar
saudades da subida da Biologia na USP. Na volta, decidimos
nos incorporar ao grupo que estava treinando para a
Comrades sob a orientação do Prof. Branca
(Branca Fitness). O volume de treinos aumentou consideravelmente
(os longos passaram a ser de, no mínimo, 30km)
e uma novidade. Aprender a correr e caminhar. Conforme
me disse um dia o Alfredo Donadio (Corpore), na Comrades
se corre, mas também se anda ... e é preciso
que seja rápido.
Cumprindo
a programação e as orientações
do Branca, fomos para Amparo enfrentar a dificílima
Maratona das Águas. E com ela veio o primeiro
susto. Aquela dorzinha que todo corredor tem e acha
que vai passar, acabou pegando forte no meu joelho esquerdo
e eu simplesmente não conseguia correr nas descidas
após os 30 km. Terminei a prova correndo e caminhando
em 4:36 e com uma séria dúvida, será
que vai dar?
Consultei
o Dr. Alfonso Apostólico (ortopedista dos melhores)
e veio a triste constatação: “A
contusão é séria e se você
não cuidar, esqueça a Comrades”.
Conversei de novo com o Branca (sempre ele!), reduzimos
o ritmo dos treinos por duas semanas e comecei longas
e chatíssimas sessões de fisioterapia.
E tome aplicação de gelo em casa e no
escritório.
O
próximo passo foi o treino de 60 km, nas Rodovias
Trabalhadores e Carvalho Pinto. Sob o sol de rachar
e com subidas e descidas que não sentimos de
carro, fui bem até o 35º km, mais ou menos.
E lá estavam de volta a dor no joelho esquerdo
e o travamento do movimento da perna nas descidas. Para
não agravar a situação, decidimos
parar o treino nos 40km e continuar com a dúvida.
Será que vai dar?
Recuperado,
partimos para nova tentativa dos 60 km, aproveitando
a estrutura da Maratona de São Paulo, no dia
02/05. Começamos a correr duas horas antes no
Parque do Ibirapuera e, quando foi dada a largada oficial
da prova, entramos no final do pelotão, já
com aproximadamente 18 km nas costas. Felizmente, deu
tudo certo e completei o treino em 7 horas, sem dores,
nem enjôos (este era um outro problema nas provas
e treinos longos, mas a Sandra conseguiu resolver).
Agora vai dar, tem que dar!
E
chegou o dia da viagem. Fiz escala de um dia em Johannesburg
e aproveitei para conhecer um pouco da cidade e Soweto,
local símbolo da luta pelo fim da segregação
racial na África do Sul. As imagens guardadas
em um museu e o que representa o Nélson Mandela
para o povo sul africano são impressionantes.
Certamente a falta dessa liderança incontestável
causará uma comoção no País.
No
dia 13/06 nos encontramos em Durban, local da largada
da prova, que neste ano seria em subida, ou “up
run”, como dizem por lá. Adauto de Paiva
(cavalo puro sangue, novo recordista brasileiro da prova),
Danilo Jabá (acreditem, cearence alto, forte,
cadeirudo – bundão mesmo, existe e corre,
como corre!), Nato Amaral (grande capitão da
equipe e dono de um coração do tamanho
de seus mais de 1,90m de altura) e Antenor Sakamoto
(sem dúvida, o mais extrovertido de todos nós
e sua incrível e exemplar família –
Dona Rosa e suas filhas, Fernanda e Bina – ótimas
companhias e apoio). Lá conheci o André
Arruda, de Campinas (figuraça, com seu ótimo
humor e sotaque caipira digno de Piracicaba!) e o Fiori
(um bravo que superou a contusão no tendão
de Aquiles e as dificuldades da prova) e suas respectivas
esposas. Enfim, éramos 12 brazucas para enfrentar
os 87 km da Comrades 2004, 7 corredores e 5 pessoas
no fundamental apoio.
Na
segunda-feira, 14/06, fizemos de ônibus o reconhecimento
do percurso e aproveitamos para aprender um pouco dos
segredos da prova com o nosso guia, Peter e suas 24
Comrades nas costas e as seqüelas em seus dois
joelhos. Minha primeira impressão não
foi nada agradável, pois tudo me pareceu mais
difícil do que imaginava. As subidas eram mais
íngremes e as descidas mais longas do que pareciam
no mapa com perfil altimétrico que pendurei em
um quadro à frente da minha mesa de trabalho
para memorizar e me acostumar com a idéia. Das
recomendações do Peter, duas registrei
e segui à risca: 1. Tenha sempre um plano “B”,
para o caso de sua estratégia de prova falhar;
e 2, se sentir cansaço, dores e vontade de desistir,
descanse e alongue uns 30 minutos antes de embarcar
no ônibus de resgate, pois a partir daí
não há mais volta. Segundo ele, já
cansou de ver atletas que 5 minutos após o resgate,
constatam que poderiam retomar a prova, o que absolutamente
não é permitido pelo regulamento. A sensação
de arrependimento e de frustração ficam
estampados no rosto de cada um!
Durante
a viagem, visitamos o muro onde estão as placas
que registram os atletas que já realizaram a
prova e uma escola para crianças órfãs
e deficientes que cantaram várias músicas
em nossa homenagem. Para dizer pouco, foi uma grande
lição de vida para todos nós.
De
volta ao hotel, defini meus planos para a prova. Plano
“A” – 7min/km, 10:15 no total e controle
do tempo a cada 10 km. Plano “B” –
10:45, contando os 30’ para descanso e alongamento
recomendados pelo Peter. Plano “C”, chegar
dentro do limite das 12:00hs. Pedir resgate, nem pensar,
só em último caso ... Fui dormir ouvido
o ronco das reduzidas da caixa de câmbio do ônibus
para vencer as subidas, principalmente as denominadas
“Big Five”.
No
dia anterior à prova, fomos pela última
vez ao Pavilhão de Exposição, encomendamos
a placa em homenagem ao Sr. Bush e, mais uma vez, almoçamos
massa com molho napolitano e Alfredo (6 grandes porções,
divididas em 4 brasileiros famintos). O Nato aproveitou
para acertar um pequeno problema administrativo. Nosso
uniforme tinha o logotipo da prova (outra homenagem
ao Sr. Bush), o que não é permitido. Após
uma conversa com o árbitro principal da prova,
o uniforme foi liberado apenas para este ano.
Jantamos
massa (de novo!), fizemos os últimos preparativos
(números na camiseta, chip, etc) e fomos dormir
cedo, todos preocupados com o Jabá, que estava
com dores de garganta e febre. Acordei às 3:00hs,
tomei um café reforçado e uma ligação
para casa (“So, chegou o dia, estou indo!”.
A resposta não poderia ser melhor: “tenha
juízo, vá com calma, você tem 12
horas para fazer a prova. Um beijo”).
Fomos
para a largada e antes de irmos cada um para a sua baia,
nos abraçamos e combinamos nos encontrar, com
saúde, no final da prova. Agradecemos a todos
que nos apoiaram, gritamos BRASIL e fomos em frente.
Pontualmente às 5:30hs, ouvimos o galo cantar
e o tiro de canhão que marcam o início
da Comrades. Estava escuro, a temperatura baixa, mas
agradável e muita gente torcendo e nos desejando
boa sorte. Parte dos torcedores, é verdade, estava
lá também para receber os agasalhos que
os corredores, após a largada, jogam ao lado
da estrada. Depois de alguns km, entreguei minha camiseta
de manga comprida para uma senhora que, de mãos
postas, agradeceu quase que de joelhos.
Corri
“tranqüilo” até o km 30, onde
cheguei cerca de 13 minutos antes do previsto e esta
reserva de tempo foi importante para administrar o cansaço
no final. Fui alcançado pela Stephany, amiga
australiana do Nato que, pelas minhas contas, deveria
estar bem à minha frente. Corremos e andamos
alguns km juntos, mas como ela corria demais nas descidas,
após a terceira, achei melhor deixá-la
seguir do que arriscar a me machucar. Após alguns
km., a encontrei novamente, mantendo um ritmo bem mais
lento em função de enjôos. Completei
a maratona em 4:25 e me sentindo muito bem, aí
já intercalando corrida e caminhada nas subidas.
A
organização da prova é excelente,
com inúmeros postos de abastecimento com água,
isotônico e coca cola, além de outros com
batata, bolachas, banana e maçã e, principalmente,
massagens (parei umas 3 vezes para aliviar os princípios
de câimbras). A torcida é um capítulo
à parte. Presente em todo o percurso, estimula
os corredores de maneira fantástica e, aos estrangeiros,
dedica maior atenção, ora gritando o nome
do seu País, ora agradecendo pela presença.
E, mais uma vez, ouvir o canto das crianças da
escola foi emocionante.
A
partir de Inchanga (esta subida e os dois Poly Shorts,
um pouco mais à frente, simplesmente não
existem. Você aparentemente está no limite
de suas forças e elas parecem não acabar
nunca!), passei a somente andar nas subidas e a correr
nos trechos planos (se é que existem!) e nas
descidas. Lembro-me de perto do km 70 ter feito 4´:40”/km
em alguns trechos, sem saber de onde vinha a força
para tal ritmo.
Faltando
5 km para a chegada, passei a carregar a bandeira do
Brasil que meu filho Marco havia posto em minha bagagem.
A entrada no estádio, com as pessoas batendo
com as mãos nas placas e gritando “run,
run,run ...” e “Brasil, Brasil ...”)
é emocionante e indescritível. De lembrar,
arrepia!
Quase
2.000 km de treinos depois, completei a Comrades, pela
cronometragem oficial, em 10hs:16min (no meu cronômetro,
10:13). Deu Plano “A”, na mosca!!!
Com
muito orgulho, levantei a bandeira brasileira para a
foto da Bina Sakamoto, recebi a medalha e fui comemorar
com os demais que já haviam chegado. E todos
ficamos aguardando e torcendo para que o Sakamoto chegasse
também a tempo de receber sua medalha de bronze.
Quando ele cruzou o último tapete abaixo de 11
horas, a festa foi total. Todos os brasileiros chegaram
e conforme combinado na largada, com saúde.
Nossa
equipe, como já mencionei, correu em homenagem
ao Sr. Gustav Bush que, para todos os que o conheceram,
foi um exemplo de pessoa e de atleta. Particularmente,
corri pelos meus pais (se estivessem por aqui, certamente
estariam orgulhosos por eu ter completado a prova e
participado da equipe brasileira); pelos meus filhos,
Théo e Marco, ótimos meninos e que nos
dão muitas alegrias; pelos meus sogros, que há
pouco descobriram os benefícios e os prazeres
da prática esportiva; pela minha irmã
e meus sobrinhos; e pelo Jair que, em função
de um tombo e uma fratura no pulso 15 dias antes da
prova, não pode viajar conosco.
So,
obrigado por tudo. Você correu comigo desde o
primeiro treino até o último km da Comrades.
Um beijo.
A
todos os que aqui mencionei, aos meus amigos e parentes,
muito obrigado pelo incentivo e pelo apoio que nunca
me faltaram e que foram fundamentais para que eu chegasse
lá. Branca, você e sua equipe foram demais,
valeu!. Miguel e Edu, da High Jump, vocês também
estiveram comigo. Milton Mizumoto, a reunião
da equipe naquele sábado à tarde e suas
recomendações foram decisivas. Obrigado.
Agradeço
também aos meus sócios (Zé Paulo,
João – obrigado pelas milhas – e
Roberta) e colegas de escritório (Moutinho e
Tranchesi Advogados) que me agüentaram falando
dos treinos e da prova desde o ano passado, especialmente
à Dona Giorgina e a Kita pelos lanches, Ana e
Márcia pelas consultas médicas e controle
dos horários.
A
todos que sonham um dia participar de uma ultra maratona,
essa é a prova. Jair, Alberto, Carlos Souto e
Luiz, que apesar do esforço não puderam
participar, não desanimem e retomem os treinos.
O próximo ano será de vocês.
16 de junho de 2.004. A minha primeira Comrades jamais
esquecerei.
Seba
- Sebastião Araujo da Costa Jr.
Associado
Corpore: Gostou da história que acabou de ler?
Pois então colabore com esta coluna. Divida suas
histórias com outros corredores. Para isso, nos
envie seu texto* e imagens** para minhahistoria@corpore.org.br
e aguarde a publicação aqui no site! Participe
|