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Exclusivo para Associados Corpore |
Silvia
Geruza F. Rodrigues
Fiz balé clássico quase
minha vida inteira, até os 25 anos de idade.
Balé clássico requer muita leveza, ritmo,
coordenação e expressão corporal,
é algo que dá postura e principalmente
leveza no caminhar. Casei aos 24 anos e meu marido não
quis mais que eu participasse de apresentações,
o que fazia todo fim de ano. Acabei me desinteressando
pelo balé e entrei na aeróbica, ginástica,
hidroginástica, natação, tudo para
não parar de exercitar, porém ele sempre
gostou de correr e vivia dizendo que queria tanto uma
mulher corredora. Isso não me animava, pois achava
a corrida algo muito agressivo.
Todos os anos ia torcer por ele na São
Silvestre, levar gatorade no meio do caminho e torcer
por ele na maratona de Nova Iorque. Até que um
desses anos, vi passar por mim o senador Eduardo Suplicy,
a quem sempre admirei por suas posturas políticas.
Então pensei comigo mesmo: "Se ele está
conseguindo, eu um dia conseguirei", e coloquei
na minha cabeça que iria correr a São
Silvestre do ano seguinte.
Falei isso para meu marido que riu de
mim juntamente com alguns de seus amigos de corrida.
Esse sorriso zombeteiro foi tudo que precisava para
me desafiar. Comecei em Maio a treinar escondido com
um amigo meu, no parque Ibirapuera. Comecei correndo
500 metros e andando 500 metros, que dificuldade!
Após
uma semana comecei correndo um km e andando um km, e
passava assim de semana a semana aumentando minha kilometragem.
Lembro que um dia correndo sozinha na pista de cooper
de 1.500 mts dentro do Ibirapuera, havia completado
meus únicos 3 kms que conseguia naquele tempo,
e meu amigo passando entrou na pista e me puxou por
mais 1.500 metros, terminara com a lingua de fora os
4.500 mts. Mal pude acreditar.
Comecei então a treinar na pista
de fora que somavam 3 kms, e um dia tentei seis kms,
outro dia tentei 9kms, até que enfim, um mês
antes da S. Silvestre consegui correr 12 kms. Vitória!
Contei então para meu marido que iria correr
a São Silvestre e que havia treinado escondido
dele. Para surpresa dele, dia 31 de Dezembro, lá
estava eu com um tênis, shorts, camiseta, pronta
para a famosa São Silvestre.
Isso foi em 2002. Corri aquela corrida
com um dia muito quente, juntamente com os homens. Ao
avistar a Brigadeiro Luis Antonio, já totalmente
estafada, deu-me vontade de sentar e chorar. Quanto
mais olhava para cima e via as cabecinhas já
na Av. Paulista eu pensei: "Vou sentar e chorar."
Eu dizia para meu amigo que corria comigo para me dar
uma força: "Pode ir Henrique, eu não
vou conseguir." Ele falou: "Se você
sentar eu lhe puxo nem que seja pelos cabelos. Você
está vendo aquela Japonesa ali? Ela começou
bem depois de você e está na sua frente."
Ele conhecia meu espírito competitivo e sabia
bem onde me pegar. Quando pensei naquela mulher que
havia (ele havia mentido para mim) começado depois
de mim e que passara na minha frente, criei todas as
forças interiores e exteriores que me restavam,
coloquei motor nos pés, e deixei a japonesa comendo
poeira, e muito....
Terminei a prova em 1,48 minutos (uma
hora e quarenta e oito minutos). Que vitória.
No janeiro seguinte me inscrevi no grupo
de corrida Race, e em Dezembro corri a São Silvestre,
dessa vez ajudando uma amiga, em 1h44 min. Fora outras
inúmeras corridas durante o ano de 10 kms, 12
kms. Em abril de 2004 corri minha primeira maratona
em Paris: 5:13hs. Continuei treinando para a maratona
de Nova Iorque. Uma prova muito mais difícil
do que a de Paris, com muitas subidas e trechos difíceis:
consegui bater meu próprio recorde: 4:48 minutos.
Quando
penso em mim mesma esbaforida sem conseguir subir aquela
Brigadeiro Luis Antonio, com vontade de sentar e chorar,
e agora meu treino normal é de 12 kms quase que
diariamente me alegra saber como a disciplina e constância
são importantes em nossa vida.
De manequim 42 passei a usar 38. Minhas
pernas estão duras, minha barriga completamente
desaparecida, sinto-me como uma adolescente todas as
vezes que participo das competições, e
participo quase de todas da Corpore. Em 2003 me tornei
associada da Corpore e curto correr. Traz saúde,
eleva sua auto-estima e lhe dá uma sensação
de vitória todas as vezes que se cruza uma linha
de chegada.
Hoje,com meus 51 anos posso dizer: Sou
uma corredora feliz, e a agressividade que a corrida
era para mim, por causa da impressão causada
pelo balé, hoje desapareceu dando lugar a uma
sensação de ser uma vencedora sempre,
apesar das colocações.
Obrigada Corpore por existir. Obrigada
Henrique pelo incentivo e ajuda. Obrigada Ricardo Arapi,
meu treinador, pela paciência comigo.
Um beijo a todos os corredores. Avante,
porque o melhor ainda está por vir.
Silvia
Geruza F. Rodrigues
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