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Aldo
Virano
Caros
amigos,
Esta é uma viagem um pouco diferente. Não
passo pelo Vietnã, India, Cambodia ou Patagonia.
Porém esta rota tem uma história de mais
de 100 anos...quem tiver paciência que acompanhe...
Segunda Feira 18 de abril de 2005.
Falta
menos de 10 minutos para a largada da 109ª Edição
da Maratona de Boston, a mais antiga do mundo e “a
true American Classic”. Mais de 20.000 inscritos
estão distribuídos nos 20 “Subdivisions”
currais, sem contar a Elite de origem predominantemente
africana que está correndo atrás da premiação
"The Big Money": $100,000 em dinheiro para
os primeiros colocados tanto no masculino como no feminino.
Me posiciono no curral número um, logo atras
dos Profissionais. Pelo menos nas principais provas
e maratonas que tenho participado ao redor do mundo
nos últimos anos, não tem sido difícil
largar em boa posição na frente. A organização
rigorosamente classifica corredores de acordo com tempo
estimado de conclusão do evento, e o mais importante,
há respeito entre os atletas.
Ao
Meio dia a temperatura está na faixa de 70 graus
Fahrenheit, um pouco alta demais e de certa forma desfavorecendo
boas performances. Falta pouco para o início
de minha segunda participação em Boston
(tendo corrido em 1998 no tempo de 2:35:58). Um atleta
precisa qualificar para correr esta legendaria competição,
sendo vários os índices conforme faixa
etaria (em meu caso, 3:20 ou abaixo).
Contagem regressiva….”Countdown”...
Conhecemos a famosa história contada sobre o
corredor (Pheidippides) que fez o percurso de 42 Km
195 mts para avisar ao povo da vitória grega
sobre os persas. O histórico percurso (26.2 milhas,
42.195 metros) de Boston percorre as cidades rurais
de New England: Hopkinton, Ashland, Framinghan, Natick,
Wellesley, Newton hills e terminando a distância
de "apenas" 26.2 milhas / 42 kilometros no
centro de Boston em Boylston Street, perto da torre
do John Hancock em Copley Square. Esta rota tem muitas
histórias e vários astros como Bill Rodgers
que por 4 ocasiões venceu a famosa competição,
ajudando a alavancar o “Running Boom” americano.
Inúmeros especialistas tentam ano após
ano decifrar o único e difícil percurso
da maratona de Boston: sao 16 milhas iniciais de várias
decidas em diferentes ângulos e intensidades,
mais 4 milhas e meia de subidas intercaladas culminando
com a famosa Heartbreak Hill, e "finalizando"
com mais 5 milhas de descidas.
Minhas metas iniciais eram: Objetivo 1: melhorar PR
(Personal Record, melhor marca na distância):
2:33:30 (Disney 2000, 3o) / Objetivo 2: melhorar o melhor
tempo anterior em Boston (2:35:58 1998) / Objetivo 3:
melhorar 2:40. Objetivos audaciosos tendo em vista o
dificil percurso, mas este é o real espirito
motivador deste esporte, ir atrás dos seus limites,
se esforçar e melhorar sempre!
É
dado o tiro de largada! Durante o começo de prova
em decida e em meio a uma avalanche de corredores, procuro
me posicionar e largar de forma conservadora, sem pressa.
Uma maratona jamais se decide nas primeiras milhas ou
kilometros. Após primeira milha inicial a 6 minutos,
ajusto meu ritmo na casa de 5:45 / 5:50 por milha (3:34/3:37
por Km). São descidas e mais descidas que não
acabam mais, alguns trechos mais acentuados, outros
quase planos.
A
população das cidades por onde passa o
percurso está toda na rua para acompanhar os
corredores. É emocionante. Já competi
em New York, Chicago, Rotterdam e Disney, mas Boston
e uma prova muito especial. Você se sente forte
só pelo fato de estar largando em Hopkinton.
Boston Marathon representa praticamente um “Super
Boll” das maratonas. A adrenalina pulsa forte.
O apoio do público é cativante.
Passo os primeiros 5Km para 18:09, 10Km para 36:08,
15Km para 54:13, 20Km em 1:12:31 e a meia maratona para
1:16:27, tudo como programado e me sentindo bem. Um
relógio. Média de 5:50 por milha exatamente.
Ritmo exato para quebrar meu melhor tempo e obter algo
em torno de 2 horas e 32 minutos. Sabia que seria muito
difícil ou quase impossível o "negative
split", ou seja, correr a segunda metade do percurso
mais rápido que a primeira. Principalmente em
uma prova predominantemente de descidas onde as "montanhas"
estão na segunda parte do percurso.
Chegamos
a primeira série de subidas na altura da milha
16. O ritmo naturalmente cai nas subidas, mas sigo em
frente. Gradativamente o cansaço começa
a chegar de forma intensa e irreversível. Meus
dois quadriceps, de tanto martelados nas descidas, já
dão sinais de exaustão...
São várias subidas intercaladas e chega
um momento em que me pergunto (e também as outras
pessoas na rua), esta é a tal da Heartbreak Hill?
O povo não pára de gritar e incentivar.
Continuo a escalada rumo ao topo. As subidas não
são tão íngremes, porém
descubro aos poucos e de forma dolorosa que não
tenho mais quadriceps.
Chega
o momento de descer novamente. “Teoricamente”,
uma fase mais fácil. Só teoricamente,
pois quem já correu uma maratona sabe a dificuldade
dos kilometros finais.
Na altura da milha 21, o meu ritmo já caiu radicalmente,
e praticamente não consigo mover o corpo, me
arrastando em 7:30 por milha, ou 4:30/4:40 por Km. Mas
o pior ainda estaria por vir.
Milha 22 ou 23, o corpo já não responde
mais. Ácido lático até na orelha,
porém concentrado predominantemente nos dois
quads. Em cada passada, a sensação parece
ser de estarem batendo com um martelo gigantesco nas
minhas duas coxas.
Algo que somente fiz uma vez antes em quase 20 anos
de atletismo, resolvo andar um pouco. Retomo posteriormente
o trote, para delírio e aplausos "da galera"
postada em cada calçada.
Resista...Aldo....memórias
do tempo em que fazia meus fartleks na grama do Ibirapuera
em companhia do melhor técnico de corrida brasileiro,
Vanderlei de Oliveira, nos idos de 1989, me vem a cabeça....Não
desistir nunca, e "the most important factor in
running success is not the body but the mind" –
o fator mais importante para o sucesso de um corredor
não é o corpo, mas a mente.
Ao contrário dos primeiros 3 quartos da maratona,
agora algumas levas de maratonistas passam por mim.
Vou literalmente me arrastando para a chegada, finalmente
completando este difícil evento no tempo lento
de 2:51. Longe do meu objetivo, porém dentro
das condições da prova foi uma experiência
sofrida e que ficará marcada na memória.
Com certeza as próximas competições
no terreno plano Floridiano serão bem mais fáceis.
Resultado suficiente para terminar como primeiro do
Sul da Florida e segundo no estado.
Todos
atletas, profissionais ou não, têm provas
boas e ruins. Todos passam por sucessos e fracassos.
Todos em algum momento quebram. Como exemplos, a triathleta
Fernanda Keller quebra. A Paula Radcliffe quebrou nas
Olimpíadas, para depois vencer em New York e
mais recentemente, Londres. Na maratona de Boston, em
2005, eu quebrei. Atingi o famoso paredão, ou
"The Wall". Terminei me arrastando. Mas não
há motivos para preocupação. Não
vivo disso. “It is just a passion” a corrida
está no sangue desde pequeno. Outras provas ocorrem
em futuro próximo. O esporte atletismo é
assim mesmo. Não tenho dúvidas que atingirei
meu objetivo de correr próximo a 2:30 ou até
baixar esta marca. Principalmente depois de ter corrido
recentemente meia maratonas na faixa de 1:12 / 1:13.
Boston não é para residentes do Sul da
Florida. Não há como replicar as condições
específicas do percurso de Boston no terreno
plano de Miami e Florida, não importando quantas
pontes você subir e descer. Em São Paulo
talvez teria condições de me preparar
mais adequadamente, mas obviamente treinamos conforme
as condições presentes.
Vocês me perguntam, como foi a viagem a Boston,
foi "só" pra correr a maratona como
doido? Nao, me diverti bastante com amigos e tive oportunidade
de “descansar”. Boston, assim como Chicago,
é uma cidade fantástica. Ótimos
restaurantes e em cada um deles, no mínimo um
garçom ou a cozinha inteira é formada
por brasileiros. A melhor forma de se obter uma rápida
e prática primeira impressão de uma cidade
continua sendo, em minha modesta opinião, um
trote de 30/40 minutos pelas ruas.
Em
dezembro tem mais no plano de West Palm Beach International
Marathon....
Saudações atléticas,
Aldo
Associado
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