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Comrades Marathon – História de Alfredo Donadio

18/3/2003, por Flávia Prado
Comrades Marathon – História de Alfredo Donadio (Associado e atual Diretor de Comunicação Corpore)
O que poderia reunir pessoas tão diferentes como um descendente de português, outro de italiano, dois de japoneses, um de árabe, um inglês, um negro, um judeu e um destrambelhado metido a triatleta com um pino no calcanhar em um dos pés? Um desafio chamado Comrades Marathon. Este grupo tão heterogêneo, de corredores amadores, acreditou e foi em frente cumprir sua meta. Movidos pelo ideal de superação, seu objetivo era ultrapassar seus próprios limites.
Como Nasceu a Idéia
Um dia, em meados de novembro de 98, tentava encontrar algo interessante na TV, quando me chamou atenção um programa sobre uma corrida. Era a historia de Comrades Marathon, uma ultramaratona na África do Sul, com um percurso de 90 km. Uma estradinha estreita que ia de uma cidade de nome esquisito a outra.

Já havia ouvido falar sobre esta corrida, através do Márcio Milan que participou em 97, sendo, até então, o único brasileiro a completar a prova.

Depois de assistir atentamente o documentário fiquei bastante interessado. A prova parecia animadíssima. Havia uma quantidade enorme de pessoas durante todo percurso, o que me fez lembrar a Maratona de Nova Iorque, prova tão querida por todos nós maratonistas.

Mas essa tinha um problema: um acréscimo de 48 quilômetros nos 42K195m de uma maratona. Seriam 90 km de corrida.

O Apoio do Técnico
No dia seguinte, ao encontrar com o Branca, meu técnico, comentei sobre o documentário e perguntei sua opinião. Ele torceu o nariz, deu uma olhadinha meio que de reprovação e respondeu: "Tem certeza que é isso mesmo que você quer fazer?”. Deixada a dúvida no ar, saímos juntos com nosso grupo de corredores pelo do Parque do Ibirapuera, como era de costume aos domingos.

Uma hora depois, terminado nosso trote, falei novamente:

- E ai, o que você acha? consigo ou não?

Ele mandou de novo:

- E isso que você quer? Por acaso você sabe o que é correr uma ultramaratona? Sabe que vai ter que deixar um monte de coisas de lado? Você está mesmo afim?

Depois de alguns minutos de papo, decisão tomada:

- Se você me ajudar, sei que posso terminar a prova.

- Se e o que você quer, vamos em frente, mas olha vai ser pra valer! E mais: se eu puder, vou junto com você.

O Apoio Médico
Imediatamente, fui procurar meu amigo e médico, Milton Mizumoto (atual Diretor Médico da Corpore). Ele não só apoiou, como também aderiu à idéia, desde que nós fizéssemos a coisa certa. Ou seja, iríamos montar um projeto e nos cercaríamos de todos os cuidados possíveis para que pudéssemos ter sucesso na empreitada
As Adesões
Passadas algumas semanas éramos treze corredores, alguns amigos, outros conhecidos apenas das corridas. Liderados pelo Dr. Milton Mizumoto, coordenador médico do projeto, que já tinha providenciado os técnicos, a fisioterapeuta, os laboratórios de analises clinicas, o local do teste ergo-espirometrico, a nutricionista, etc, fomos em frente.

Marcamos a primeira reunião e decidimos que toda a organização deveria começar a partir de 16 de janeiro de 99, cinco meses antes da data de prova.

Os Treinos e os Preparativos
Márcio Milan, então, entre outras dicas, nos relatou, dentro da sua ótica, tudo o que significava participar de Comrades. Por sua indicação, começamos então a correr os longões dos sábados na Rodovia dos Bandeirantes.

Saíamos bem cedo do km 28 em direção ao interior, com um ou mais carros de apoio para alimentação e hidratação. Cumprimos nossa planilha de treinos que, entre outras distâncias, tinha longos de 50 km, 60 km, 65 km e 70 km de uma só vez.

Não foi fácil, mas como o grupo estava bem coeso, foi até divertido, principalmente quando os treinos terminavam e íamos para o sitio do Charbel em Indaiatuba, com direito a piscina, frutas, sucos e almoço.

Nesses treinos, a cada três quilômetros percorridos, nos reabastecíamos com água, isotônico, bolachas de água e sal, frutas, etc. Em paralelo, aconteciam exames laboratoriais, ressonância magnética, fisioterapia, consultas à nutricionista, ergo-espirometrico, etc.

Durante os treinos, alguns tiveram que se retirar do projeto por motivos particulares ou por falta de condição física. Após algumas semanas, ficou definido o grupo, O EXÉRCITO DE BRANCALEONE: Alfredo, Branca, Charbel, Coelho, George, Milton, Nelson, Peter e Zeca.

A Viagem
Dia 10 de junho de 99, lá estávamos nós, no aeroporto internacional de Cumbica, embarcando com destino a África do Sul (tivemos até bota-fora dos nossos amigos mais próximos).

Atravessamos o Atlântico. Como fizemos escalas em alguns aeroportos africanos, antes de chegarmos ao nosso destino final, coincidentemente, num destes vôos (e num mesmo hotel), estavam a Maria Auxiliadora e o Walmir Nunes, duas feras da ultramaratona, que estavam indo para corrida a convite dos patrocinadores da prova.

Dia 13 de junho, fomos à feira da maratona. Retiramos os nossos kits, tranqüilamente, pois os estrangeiros são atendidos em um local à parte, dentro do pavilhão. Fomos muito bem recebidos. O kit continha diversas coisas: a camiseta oficial, uma pasta com informações da prova, catálogo com os nomes dos inscritos e diversas revistas. Havia também macarrão, arroz, desodorante, balas, emulsão para massagem, etc.

Dia 14 de junho: começou o martírio. Pela manhã, fomos fazer um tour, que a organização oferece aos estrangeiros. Saímos de ônibus do pavilhão da feira e fomos a Pietermaritzburg local em que naquele ano, seria dada a largada.

Nos levaram ao museu de Comrades, uma casa onde ficam os organizadores e o museu, com a maquete do percurso, troféus, medalhas, sapatilhas, fotos dos ganhadores, o Green Number Club (clube formado por pessoas que correram ao menos 10 Comrades) etc. De volta ao ônibus, fomos em direção a largada e ao percurso.

Eu tinha em mente que o percurso teria a mesma planialtimetria da Rodovia dos Bandeirantes, ou até menos. Que decepção! Acreditem, não há trechos planos. São longas subidas e descidas. Intermináveis. Muitas com grandes inclinações, outras com pequenas, mas nunca terreno plano. Curvas e mais curvas. A estrada tem oito metros de largura e é toda asfaltada. O visual do percurso, visto do ônibus, é deslumbrante. São vales e montanhas a perder de vista. A vegetação não é muito alta, o que nos permite enxergar a linha do horizonte bastante distante. Enquanto viajávamos, o guia contava casos e aspectos do percurso e corrida.

Dava para sentir que todos presentes estavam, digamos, meio que preocupados, atentos ao percurso e, mudos.


Ao final do tour, o comentário foi geral: “Hum! Não vai ser nada fácil”. Tenho certeza que todos, como eu, reviram suas metas colocando muitos e muitos minutos a mais em sua previsão de chegada.

Nessa hora, fiquei bastante arrependido por ter, em alguns momentos durante o treinamento, dado uma "cozinhada" na planilha de corrida, e várias "matadas" na musculação e natação.

Alfredo (foto da esquerda) e Dr. Milton Mizumoto (direita) - humor para encarar do desafio


 


O Grande dia
Chegou o dia, 16 de junho. Como sei da minha ansiedade antes da prova, procurei, na tarde do dia anterior, dormir um pouco. Isso me ajudou, pois, depois do jantar, apesar de ficar deitado, não consegui pregar os olhos. Eram 3h30 da manhã, depois de um levíssimo café da manha - chá com bolachas de água e sal -; pegamos o ônibus, em direção a Pietermaritzburg.

Primeira boa notícia: a temperatura. Esperava-se algo em torno dos cinco graus Celsius e, seguramente tínhamos na largada, dez graus. Durante a prova a temperatura ficou por volta dos 18/20 graus Celsius e com nuvens, o que nos favoreceu bastante. A largada foi dada pontualmente às 6 horas da manhã. 14 mil pessoas, de várias nacionalidades, a grande maioria africana, largaram conosco em frente ao prédio da Prefeitura de Pietermarintzburg.

Logo no começo, enfrenta-se uma descida bastante acentuada. Durante o percurso, aquela paisagem que eu tinha visto do ônibus quando fizemos o tour, agora se transformou em asfalto e mais asfalto. O incrível era que não conseguia ver nada além das estações de abastecimento - impossível não vê-las, pois são enormes -; as marcas dos km, e em alguns momentos, as pessoas que nos assistiam.

No inicio é terrível, pois as placas noticiam fatos angustiantes: "faltam 85 km". E você corre, corre, corre e lá está: "faltam 75 km". No decorrer da prova, procurava imaginar não quanto estava faltando, mas o que já havia feito. Depois do km 60, km 65, você até esquece quanto tem pela frente e começa a se concentrar na chegada. Pensava: "Legal, faltam mais 21 km".

A tensão, para dosar corretamente a energia e velocidade, é muito desgastante. É difícil permanecer descontraído, e isso não é bom, pois quando se corre tenso, as dores aparecem mais rapidamente.

Quando as dores ficavam fortes demais, parava para as massagens (parei três vezes, a partir do km 60) e lembrava o que a Maria Auxiliadora e o Walmir nos disseram:
"Lembrem-se: os outros também estão sentindo dores, portanto corra mais do que eles, você consegue".

O dia da prova é um feriado nacional e as famílias aproveitam para fazerem seus churrascos ao ar livre, na rota da ultramaratona. Durante os 90 km do percurso elas gritam e aplaudem o tempo todo, dando incentivo, energia e coragem aos participantes.

Existem alguns pontos inesquecíveis, como uma escola onde havia uma arquibancada e os alunos gritavam, batiam palmas, cantavam e faziam o maior fuzuê. Em outro ponto, ficavam dezenas de crianças deficientes em cadeira de rodas, assistindo e aplaudindo os participantes. E outro momento, via alguns grupos de nativos e assim foi durante os 90 km.

Uma Chegada Fantástica
A chegada é fantástica, na cidade de Durban, ao nível do mar. Os corredores que conseguem terminar a prova dentro do prazo máximo, de onze horas, são recebidos dentro de um estádio de Rubgy, por um público de 30 mil pessoas. Os gritos e aplausos são constantes, para todos os corredores sem distinção, sejam eles atletas de elite ou ilustres desconhecidos, como nós. O interessante é que quando eles percebem, pelo número de peito ou o das costas, que o corredor é estrangeiro, gritam mais ainda, mostrando a vibração do povo africano e dando uma lição de receptividade a todos que lá estão.

Quanto mais próxima é chegada o prazo limite, mais inflamada fica a platéia, que grita e incentiva os que chegam "capengando" de cansaço. Nos minutos derradeiros, acontece uma contagem regressiva feita por todo público do estádio, puxado pelo locutor oficial da prova. É um momento de muita emoção para quem assiste e maior ainda para aqueles que, em sua maioria, são ajudados por seus companheiros de corrida, pois, sozinhos, mesmo faltando só alguns poucos metros, já não tem mais forças para atravessarem o pórtico de chegada, dentro do prazo final.


O momento da Chegada

Quem consegue a façanha dentro das onze horas é premiado com medalha de ouro, prata ou bronze, dependendo do tempo de sua corrida. Aos que chegam após este período, infelizmente, se quiserem a premiação, terão que se preparar melhor e voltar no próximo ano, para tentar fechar a prova no prazo. E mesmo os esgotados, que chegam após o limite do tempo, ficam contentes de estarem lá, por terem terminado a prova e, certamente, prometem para o próximo ano uma melhor performance.


O resultado oficial dos brasileiros
Maria Auxiliadora Venâncio
06h40m18s (4º lugar na geral).
Vanderlei Severiano
07h56m36s
Alfredo Donadio
09h07m06s
Marcio Milan
09h17m01s
George Gabany
09h24m17s
Jose Fernando
09h24m17s
Charbel Bechara
09h43m59s
Celso Silveira
10h20m25s
Milton Mizumoto
10h21m14s
Peter Strimber
10h55m05s
Walmir Nunes e Nelson Mizumoto
não completaram a prova
 
Decidir correr uma ultramaratona é tão difícil como correr o primeiro quilômetro da vida. Mas, quando se tem vontade, disciplina e determinação, nada é impossível.

A Comrades Marathon, com seus 90 km, requer, além de um treinamento bastante sério, muita dedicação. E podem acreditar que vale a pena cada passada, cada metro de asfalto percorrido. Sinto-me feliz e emocionado cada vez que vejo as fotos; elas trazem de volta aquela sensação de ter atingido minha meta, o orgulho do vencedor.

A hora que cruzei a linha de chegada ficará gravada para sempre na minha lembrança. Foi um momento de felicidade e de grande emoção. Espero que todo corredor possa, um dia, ter esse momento.

Galeria de Fotos

De volta pra casa
 


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