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Entrevista - Luiz Tavares

20/01/2006, por Marcel Trinta

Bom fotógrafo, com várias especializações e um provável futuro de sucesso pela frente, Luiz Tavares abandonou tudo para seguir a sua paixão pela corrida de rua. Fez supletivo, voltou a estudar e se tornou um profissional de educação física.

Hoje, tem sua equipe, faz seus treinos e trabalha muito o lado social, fazendo diversas campanhas para ajudar as pessoas que não têm condições a participar de provas. Saiba mais sobre a história de Tavares, sua equipe, seu trabalho e projetos sociais:

Quando descobriu a corrida de rua?
Desde pequeno sempre assisti a São Silvestre ao vivo na Consolação pelo fato de morar próximo da região. E dizia aos meus pais que quando crescesse iria treinar e participar da Corrida

Como foi seu inicio no esporte?
No começo de 1985 convidei um colega de colégio a participar comigo dos treinamentos para corrermos a São Silvestre. Sem nenhuma experiência começamos a correr na pista de cooper do Ibirapuera onde mal conseguia dar uma volta de 1500m. Depois, no meio do ano, para treinarmos subidas íamos ao começo da Peixoto Gomide e subíamos até a Paulista. Faltando 5 meses para a São Silvestre, meu colega começou dar desculpas em não treinar, porém não desanimei e continuei no meu sonho de participar da São Silvestre. Comprei uma roupa especial para a prática - camiseta furadinha e shorts de nylon - e um tênis de corrida. Já estava me achando um atleta em condições de ganhar a São Silvestre.
No mês da Corrida fui fazer o reconhecimento do percurso e no meio do treino tive uma sede tão forte que parei na primeira padaria e pedi uma Coca Cola - tamanha a inexperiência - e continuei o percurso.
Há duas semanas da Corrida me inscrevi em uma prova que chamava Corrida de Natal, um percurso de 10 km com largada em frente ao Obelisco. Confiante, posicionei-me bem na frente na largada e um atleta que estava do meu lado me falou: “E aí, você vai consegui acompanhar o carro da cronometragem?” E eu super confiante respondi que sim, e mais que isso, queria ver se o carro conseguia me acompanhar ou teria que diminuir meu ritmo. Dada a largada, não só perdi o carro de vista como vi um monte de atletas passando por mim, quase me atropelando. E praticamente no quilometro 5 comecei a caminhar de tanto cansaço. A partir daí acordei para a realidade que não era bem assim.
Na São Silvetre terminei em 3885º e fiz a prova 1h 08. Surgiu a partir daí um amor pela corrida de rua.

Trabalhou com alguma coisa antes da corrida?
Na época trabalhava como fotógrafo e tinha diversos cursos profissionalizantes. Tinha um futuro promissor garantido e muito talento, visto que ganhei concurso de fotos promovido pela Fotoptica. Decidi largar a minha carreira de fotógrafo e voltar a estudar, pois estava decidido em ter meu futuro relacionado com esportes. Fiz Supletivo para concluir mais rápido e prestei um cursinho. Em 1990 passei em três vestibulares e acabei decidindo pela FMU.

Desde quando é técnico de corrida?
Me formei em 1994 pela UniFMU e no mesmo ano comecei a dar treinamento. Na época comecei com duas alunas: minha ex-namorada Marlene e Alda, uma veterana muito dedicada e conhecida que está comigo até hoje.

O que o estimulou a se tornar um técnico de corrida?
No terceiro ano de Curso de Educação Física decidi ser um técnico, pois sempre tive uma paixão em ajudar os outros e me sentir útil. Vale ressaltar que encontrei duas grandes dificuldades no começo da minha carreira. Primeiro logo que entrei na Faculdade, pois fui muito criticado pela minha família e amigos por ter trocado uma profissão certa e segura por uma incerteza onde muitos me diziam que isso não era profissão e que ia morrer de fome. E segundo, quando me formei e montei a minha equipe, pelo fato de não ter sido um bom atleta de performance era muito humilhado pelas pessoas, dizendo que também não seria um bom técnico.
Isso me deu mais forças e me estimulou mais e hoje consigo provar que para ser um bom treinador não precisa ser um bom corredor. Hoje tenho orgulho por tudo que conquistei e onde cheguei.

Você ainda corre bastante, treina com seus atletas, participa de provas...?
Hoje ainda corro por dois motivos: primeiro para minha saúde e servir de exemplo aos meus alunos e segundo uma forma de “vigiá-los” durante a prova, para poder estar mais próximo para qualquer eventualidade.

Há quanto tempo existe a EC Tavares?
A Equipe existe há 11 anos. Começamos com duas alunas e hoje temos mais de 200 alunos.

Como foi a evolução tanto em termos de atletas como de resultados?
Muito boa e de forma acelerada e progressiva. Hoje, em se tratando de performance, temos 78 pódios conquistado por equipe e mais de 1000 pódios nas faixas etárias. E muitos atletas de ponta que acabei formando, que infelizmente não fazem parte mais da equipe, pois como não temos patrocínio fica difícil de segurá-los.

Como você faz seus treinos?
O atleta se cadastra, avalio seus objetivos e metas. Se já for um corredor costumo realizar um teste de 5000m onde será o pontapé inicial para desenvolvimento de sua planilha personalizada e individualizada, que fica disposta até no site. Se o aluno nunca correu e quer apenas condicionamento físico ou aprender a correr, disponibilizo um de meus assistentes para acompanhá-lo, para que possamos observar mais de perto a sua melhora.
Nos dias de treino desenvolvemos alongamentos, educativos, acelerações, fartlek e trabalhos intervalados de acordo com a nossa periodização de treinamento.
Uma prova do meu amor pelo meu trabalho e consideração pelo meus alunos é a disciplina. Desde que montei minha equipe, nunca faltei ou cheguei atrasado no serviço, inclusive em 1995 me submeti a uma cirurgia de redução de miopia ao meio-dia e, ao invés de ir me repousar em casa, quis comparecer às 15 h para os treinamentos, mesmo com um tampão de proteção e com dores. Tanto é que hoje em dia meus alunos quase não faltam aos treinos faça sol ou chuva, pois o treinador é o retrato da equipe, por isso que temos que dar exemplo e disciplina.

Qual seu publico alvo?
Hoje trabalho com todas as classes sociais, porém como desde início sempre tivemos em mente ajudar o próximo, temos uma conduta de cobrarmos um valor nas mensalidades bem acessível, possibilitando com que os atletas menos favorecidos tenham a oportunidade de ter um treinador. Por esse motivo grande parte de nossos atletas é formado também por pintores, faxineiros, zeladores etc.

Como você vê o crescimento das corridas de rua no Brasil?
Formidável. Quando comecei a correr só existia a Mini Maratona da Independência e São Silvestre como provas mais conhecidas. Os kits de corrida eram somente o número de peito e alfinete e não existiam medalhas de participação. A apuração era feita por etiquetas que recolhiam quando chegávamos ao final de prova. Hoje temos corridas em todos finais de semana, os kits sempre vem com camisetas e medalha no final de cada prova, existem prêmios nas categorias por faixa etária, as apurações feitas por chips e lançadas no site, as inscrições muitas vezes feitas direto pela Internet.

Você acredita que ainda estamos em uma crescente e muitas pessoas ainda vão aderir ao esporte?
Sim, com certeza. Hoje considero a corrida o esporte do futuro, pois é um esporte barato, as pessoas saem dos seus empregos de ambientes fechados e encontram satisfação em treinar em ambientes abertos, além de formar novos ciclos de amizade.

Tivemos uma prova infantil e alguns atletas eram da sua equipe. Como você faz o seu trabalho com as crianças?
Hoje trabalhamos com algumas crianças e sempre procuro deixar claro aos pais que tem que partir da criança o desejo em começar a correr. Segunda parte é o treinamento, nunca deixe que isso vire uma obrigação e sim um lazer e divertimento.

Qual é a idade ideal para se iniciar um treinamento com crianças?
Não tem idade, basta querer participar desde que de uma forma descontraída, sem responsabilidades.

Uma vez conversando aqui na Corpore você me falou sobre um trabalho social que desenvolve em sua assessoria. Nos conte um pouco sobre isso.
Como trabalhamos muito com atletas carentes e infelizmente não temos patrocínio, adotamos algumas campanhas: Doe seu tênis usados, onde recolhemos toda semana tênis usados e que ainda estejam em bom estado e repassamos aos nossos atletas. E vale salientar que não somente tênis, mas sim agasalhos, shorts, meias, roupas sociais etc. Temos a Corrente do Bem, que é uma campanha onde recolhemos de R$ 5,00 a R$ 10,00 por mês das pessoas interessadas e depositamos em uma caixinha e esse dinheiro será usado nas inscrições desses atletas. Geralmente damos preferência ao circuito Corpore por ter provas bem organizadas, por esse motivo que temos tantos atletas disputando o campeonato. Cestas básicas: Vários atletas nossos fazem doações de cestas básicas a outros atletas; Viagens: Faz 8 anos que organizo pacotes de viagens aos corredores, pois em cada viagem faço questão de oferecer cortesia para algum atleta nosso carente e é muito gratificante de poder ajudá-los e ver a cara de felicidade estampada em cada viagem, muitos deles sequer saíram de São Paulo ou conheciam praia; Lanche na Corrida: em dias de prova, onde montamos nossas estruturas cobramos uma taxa de R$ 3,00 de cada um e montamos um verdadeiro café da manhã com café , biscoito, isotônico, bolacha, frutas, sanduíches e ao final do evento doamos o resto dos lanches a nossos atletas carentes e um deles uma certa vez veio me agradecer dizendo que aqueles sanduíches serviram para alimentar sua esposa e seus três filhos naquele domingo. Não é de apertar o coração? Um fato interessante notei quando passamos a fazer esses lanches, diminuíram atletas nossos passando mal, ou seja muitos iam para a prova de jejum por não terem o que se alimentar. Doações extras: Algumas pessoas que fazem questão de ajudar, porém não querem se identificar, fazem doações de uma valor mais alto R$ 200,00 – R$ 300,00 para ajudar com inscrições e viagens. Mensalidades: Os atletas carentes faço questão de não cobrar as mensalidades, porém para eles não se sentirem constrangidos ou diferentes dos demais, faço questão que me ajudem com montagem das tendas e desmontagem, dobragem dos panfletos da equipe, panfletagem e tudo que venhamos a precisar de ajuda e eles fazem com orgulho e amor inclusive um deles sempre faz questão de levar amendoins aos treinos e distribuir aos seus colegas de equipe e outro leva mandioca cozida e quentinha para os atletas saborearem.
Enfim são pequenas coisas que realizamos e muito grande para esses atletas. Por esse motivo que nossa equipe não é simplesmente uma assessoria e sim uma família, unida e de muitos com coração bom. Mas ainda tenho um sonho de conseguir um patrocínio de alguma empresa boa, onde possamos ajudar a esses atletas que tanto merecem.


Qual a importância da ATC para os treinadores e para os corredores?

Ótimo, pois passamos ter um representante de nossa classe diante às autoridades, além de unirmos mais entre as Assessorias. Pois praticamente em todas as provas são autorizadas as montagens das tendas e estrutura de cada assessoria, sempre tendo um respaldo da ATC. E com isso quem ganha também são os corredores com toda estrutura montada, sem falar de descontos de algumas provas para as Assessorias associadas junto a ATC.

Como você vê o trabalho da Corpore junto aos treinadores e corredores? O que você destaca, o que falta melhorar...?
Melhorou muito, pois permitindo toda nossa estrutura nos eventos da Corpore proporcionado maior conforto aos nossos atletas, além de mostrar nossos trabalhos e divulgação. Atraindo dessa forma futuros alunos. Hoje a Corpore é exemplo de organização, atenção e cuidado com os corredores.
Uma atleta minha que no ano passado caiu na chegada quebrando os dentes da frente, recebeu imediatamente todo o atendimento necessário com muito carinho e depois ligaram para a casa dela querendo saber se já estava melhor. Realmente a Corpore não é simplesmente um clube ou organização de corrida é uma família.



 
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