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Outdoor Training - Corredores de terno saem na frente

18/6/2003, por Flávia de Almeida Prado

Rubens Werdesheim é triatleta, instrutor de mergulho e autor da monografia “o Outdoor Training: Uma ação de desenvolvimento diferenciada”. Seu trabalho de pós-graduação foi desenvolvido na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (curso de capacitação gerencial) da Universidade de São Paulo – USP. Este engenheiro civil concedeu uma entrevista exclusiva ao site da Corpore, para mostrar às empresas e corredores, que o esporte pode ir além de um momento de lazer e se tornar uma ferramenta para o desenvolvimento profissional de cada indivíduo.


Rubens Werdesheim, filho de um jogador de futebol, imigrante polonês, teve sempre em sua família uma tradição de cultura ao esporte. Quando jovem, jogou basquete, lutou caratê, e claro, futebol. Aos 18 anos, Rubens sofreu um acidente de carro e teve seu fêmur esquerdo fraturado. “Na época, fazia parte da Seleção da Universidade de Caratê. Daí pra frente, comecei uma luta interna para me recuperar disso, pois foi traumático”, contou o engenheiro. Os médicos diziam que ele não poderia mais correr e assim, Rubens passou a praticar a natação. Para tornar-se instrutor de mergulho não demorou muito, e desta semente Rubens colhe frutos até hoje, já que também trabalha nesta área.

 

Aos 36 anos, Rubens encontrou uma nova maneira de trabalhar seu condicionamento físico. “Acredito que a história do mundo se divide em duas partes: antes do computador e depois dele. Com o desenvolvimento da informática, os médicos começaram a ter outros recursos para avaliar nossa saúde”. Foi neste momento que Rubens recorreu à Medicina do Esporte, e recebeu a notícia de que poderia praticar a corrida sem problemas. “Penso que a tolerância da medicina esportiva é bem maior que a da medicina convencional. Aos 36 anos, voltei a correr aos poucos. Hoje tenho 43 e desde então venho melhorando minha performance”, contou. Depois de quase 20 anos sem correr, Rubens começou a participar das corridas da Corpore, em 1999. Sua primeira prova foi uma noturna, com percurso de 6km, organizada pela entidade, realizada no Parque do Ibirapuera.

"A corrida ajuda a desenvolver a capacidade do indivíduo de entrar em Fluxo. Com a prática de esportes é possível o desenvolvimento de pensamentos profundos, idéias novas, criatividade"

A partir disso, Rubens deslanchou. “Comecei a pedalar, voltei a nadar, e então comecei a encarar o triatlon. Resultados: hoje não tenho mais diferença entre as pernas, o osso se acomodou, a musculatura voltou totalmente. Fiz uma temporada inteira do troféu Brasil em 2001, terminei em 15º lugar na categoria – foi ótimo”.Com os estudos, pesquisas e preparações de sua monografia, Rubens parou um pouco com os treinos.

 

Reflexão – o início do trabalho

Este trabalho de pós de graduação nasceu de uma reflexão com Carlos Bezerra, seu amigo e praticante de remo, na Cidade Universitária. “Pensando sobre os processos de sustentabilidade do CEPEUSP, a expressão Outdoor Training começou a apontar na minha cabeça”.

O que é Outdoor Training?
Rubens - em uma prova de Triatlon

Outdoor Training, segundo Rubens, é uma modalidade de treinamento para gerentes. Rubens conta que esta prática é institucionalizada na Inglaterra, Nova Zelândia, Austrália, EUA. Este Outdoor Management Development foi inicialmente desenvolvido na época das duas Grandes Guerras Mundiais. “A idéia nasceu quando uma pessoa percebeu que alguns soldados mais velhos nadavam grandes distâncias quando os navios afundavam, e os mais novos não, apesar de ter mais força física. Percebeu-se o poder da atitude no desempenho esportivo. E então, começou-se a desenvolver treinamentos” contou o pesquisador.

"Acho que o esporte tem a função de integrar o ser humano, a empresa, empresas com empresas (networking)”

Esta é uma maneira de inserir o esporte dentro das empresas, e com sua pesquisa, Rubens encontrou programas, como as corridas em Nova York do JP Morgan, que tem o mesmo tipo de modelo que o C.A.R.E. – Corpore Amcham Running and Entertainment. “ Nisso pode-se observar uma função de marketing também.


Uma conclusão que cheguei no meu trabalho foi que quanto mais dimensões do ser humano você contemplar, mais resultados você terá”. Marketing, qualidade de vida, atitudes, rendimento para a empresa, e principalmente clima organizacional, são as chamadas ações de desenvolvimento, no âmbito de administração de empresas, que o trabalho do Outdoor Training pode ajudar a ter mais êxito e expressividade. “Assim, hoje o setor de recursos humanos passou a ter uma função muito importante dentro das empresas, e seu lugar deve ser ao lado da presidência”, analisa Rubens.

Esporte – atitude e competência
Na expectativa antes do início da natação em mais uma prova de Triatlon

Ao falar sobre seu trabalho, Rubens o sintetiza dizendo que seu objetivo foi detectar quais as ações esportivas estão sendo realizadas pelas empresas que valorizam seus funcionários. Encontrou duas ações: Outdoor Training e Corridas. Como Outdoor Training significa qualquer atividade feita fora do escritório, as possibilidades são imensas. “Outro dia fui questionado por uma empresa sobre o que poderia ser ensinado para seus funcionários com o Triatlon. A resposta é direta: Persistência”.

Rubens concluiu sua pós-graduação com honra ao mérito, ou seja, entre os três melhores trabalhos de sua classe. O triatleta conta algo surpreendente: “E qual foi a minha surpresa ao descobrir que os autores dos três melhores trabalhos eram corredores. Os únicos atletas foram os alunos que obtiveram melhor desempenho na turma, e olha que estamos falando de uma universidade, onde estavam pessoas extremamente capazes”. Rubens coloca ainda que já existem pessoas estudando os benefícios do esporte focando tópicos como a qualidade de vida, outdoor training, etc. Mas este estudo é feito de forma fragmentada, o que o engenheiro considera uma marca de nossa herança da Revolução industrial. “Cada um faz uma coisa. Penso que está na hora de integrar. E acho que o esporte tem esta função. Integra o ser humano, a empresa, empresas com empresas (networking), etc”.

Clima organizacional – pode melhorar?
Rubens (no barco, primeiro da direita para a esquerda), uma aventura de canoagem

Durante seu estudo Rubens não encontrou, entretanto, nenhuma pesquisa sobre as mudanças no clima organizacional da empresa (aquela pesquisa em que se mede a satisfação do funcionário). “Apesar de não haver pesquisa formal, todas as pessoas envolvidas com este tipo de trabalho, como o C.A.R.E., citam uma melhoria incrível. A chave para este desenvolvimento interno é investir no clima organizacional com ações de desenvolvimento usando o esporte e o outdoor training” - concluiu.

A vertente de sua monografia é a seguinte: a mudança comportamental do indivíduo gerando benefícios para ele e a para a empresa. Segundo Rubens, quanto mais dimensões a empresa contemplar, melhores serão os resultados. “Se você me pedir para resumir tudo isso em uma palavra só, é a seguinte: integração”, disse, e explica que esta integração abrange diversos sentidos: sociedade, indivíduo, empresa, equipe, turma... “Quem investe no todo, chega mais longe”.

Para ilustrar sua tese, o autor buscou muitas empresas que praticam no Brasil o Outdoor Training. O Diretor Executivo da Corpore, Armando Santos, o auxiliou ao passar informações sobre o SBT (Seleção Brasileira de Tecnologia) e sobre o C.A.R.E..

Outdoor Training – para todos os gostos
Rubens (esquerda) dá instruções ao mergulhador iniciantes

Um cuidado necessário de ser tomado, segundo o pesquisador, é o conhecimento de que o Outdoor Training esportivo não serve para todo mundo, e ele não deve ser imposto aos funcionários da empresa. Obviamente, há pessoas que não gostam de se aventurar na mata, e podem preferir outras atividades, como psicodrama, por exemplo. Há também aqueles que não gostam de correr.

O autor orienta que o setor de RH deve perceber as preferências do seu público, ou seja, dos seus gerentes, dos seus funcionários. “Se a preferência for para ir ao cinema e comer pipoca, este pode sim ser um trabalho de Outdoor Training. Leve todo mundo e depois discuta o filme, inserindo assuntos relevantes para o desenvolvimento de um melhor clima organizacional, de uma maior qualidade de vida”, complementa e avisa que se obrigar a participação, o tiro vai sair pela culatra.

União no Esporte

O esporte é considerado um ótimo meio para unir as pessoas do trabalho, e Rubens diz que sua experiência própria o levou a perceber mais claramente as necessidades dos outros. “Uma amizade de esporte fica até o fim da vida, não sei nem o porquê disto, mas ela fica”. Além disso, lembra que existem também as pessoas que são viciadas em trabalho, e que podem se tornar viciadas no esporte também. “Este comportamento irá se repedir em diversas e quaisquer atividades que a pessoa for executar. Por isso, o papel do Facilitador (pessoa que orienta os treinos e a transferência do aprendizado adquirido fora do escritório para o ambiente de trabalho) é fundamental, pois ele chama atenção para que equívocos como este não aconteçam”.

“A criança aprende pela observação, pela audição, mas o adulto já está formado, rígido. Então é nisso que o outdoor training irá trabalhar”

Ao fazer com que o gerente pratique esportes, como a corrida, ao lado de outros funcionários, pode-se despertar nesse indivíduo, humildade e maior senso de responsabilidade, ao fazê-lo se defrontar com seus próprios limites. “Ao ver que o garçom do café corre muito mais rápido que ele, um cara que supostamente não compras as melhores marcas, supostamente mal tem o que comer, e sobrevive com cerca de R$ 700, isso motiva um respeito mutuo”.

Competências estimuladas

Uma das curiosidades de Rubens era saber que competências o esporte ajuda a desenvolver. Concluiu que dentro do que se formula hoje, do que são competências, o esporte ajuda em muitas delas, e baseando-se disso são montados os Outdoor Trainings.

Quadro retirado da monografia “o Outdoor Training: Uma ação de desenvolvimento diferenciada”, de Rubens Werdesheim - página 15


A base do Outdoor Training e tirar o indivíduo de sua zona de conforto, e proporcionar o afloramento de comportamentos diferentes, e tomadas de decisões em outras bases. “Isto muda seu interior, e então você precisa fazer uma transferência para seu ambiente de trabalho”. Cada tipo de esporte trás um tipo de experiência. A respiração no mergulho é muito mais presente que na corrida, diz Rubens. Na corrida, o contato é maior com postura, perseverança, e outros elementos. Equitação, por sua vez, trás equilíbrio e percepção do animal. Tênis trás foco, inteligência e estratégia. “Ver um jogo do Guga na televisão é uma aula completa sobre isso. A experiência de cada individuo é singular”.

Na corrida, o “saber aprender” é ensinado com profundidade. E assim, mais um conceito é introduzido pelo autor: Outdoor Training, na verdade, é o aprendizado experiencial, que nada mais é que a forma como um adulto aprende, ou seja, pela experiência. “A criança aprende pela observação, pela audição, mas o adulto já está formado, rígido. Então é nisso que o outdoor training irá trabalhar”.

Gráfico retirado da monografia “o Outdoor Training: Uma ação de desenvolvimento diferenciada”, de Rubens Werdesheim - página 21

Filósofos chineses há 3 mil anos já falavam disso
(gráfico ao lado). Mas é preciso saber que não é só por que tal pessoa ganhou um campeonato de corrida que ela será uma boa profissional. Pode até significar que ela está numa boa condição física. Mas o importante, e que fará a diferença, é analisar esta vitória e levar as conclusões para a empresa. “Aí entra o papel do facilitador, que ajudará a fazer a transferência para a empresa: ‘viu pessoal: dá pra fazer em corrida, então vamos fazer isso nas vendas’. Ele vai buscar os ganchos e como o clima melhora, as pessoas começam a responder com mais humor e ouvidos atentos, não mais se sentindo atacadas e estressadas pela empresa”, explicou.

 




Os resultados, analises e conclusões

“Fiz um trabalho que é um diagnóstico de algo que está acontecendo nas empresas do mundo e do país. A diferença é que lá fora os programas tem maiores investimentos”. Uma das recomendações dadas na monografia de Rubens é a de ensine tudo para o indivíduo. “O Diego Lopez, que foi meu treinador, dizia: o aluno tem que ter todo o acesso ao conhecimento do esporte. Treinamento, fibra muscular, batimento cardíaco. Isso faz diferença! Esta linha investe na conscientização do que você está fazendo, e isso funcionou muito bem pra mim”. Rubens acredita que o treinador deve ser um ponto de apoio para o corredor, e que este deve ter a liberdade e a independência de montar sua programação. E aponta que se o atleta depender sempre de alguém, para tomar decisões sobre seu treinamento, isso pode até causar ansiedade e prejuízo ao sujeito.

Outra competência que esporte de performance, como a corrida, ajuda a desenvolver é a capacidade do indivíduo de entrar em Fluxo. Aquela hora que há um relaxamento em que insights vem à tona. Com a prática de esportes é possível o desenvolvimento de pensamentos profundos, idéias novas, criatividade. Isso só acontece quando se atinge a zona de conforto. Abaixo dela, a corrida pode ser tediosa, e acima pode causar estresse. Na sua zona de conforto, em fluxo, o corredor pode deslanchar. “Transferindo isso para o trabalho: se você estiver sendo sub-aproveitado, você esta infeliz. Se estiver super exigido, começa a ser agressivo. Este é um conceito de psicologia que se aplica no esporte. Este é o objetivo maior do esporte – entrar em fluxo. Não adianta se matar pra superar seu melhor tempo numa maratona e ficar estressado”, analisou.

Segundo o entrevistado, o CEPEUSP, por exemplo, não coloca em prática as possibilidades de ações com a comunidade da USP, e nem mesmo as faculdades vêem neste espaço oportunidades de ensino. “Daí o local acaba sendo depreciado. A raia olímpica da USP é outro exemplo de degradação. Ao lado do rio Tamisa, na Inglaterra, tem o museu do remo. A raia olímpica de Sidney é fabulosa! O que acontece aqui em São Paulo? Não há jogada institucional! Imagine se o Centro de Prática Esportiva da Universidade de São Paulo fosse um local de outdoor training que integrasse a FEA, a Psicologia, etc.. Seria ótimo para todos. Fora do país isso já existe. O trote de algumas universidades estrangeiras são Outdoor Training – olha que aplicação legal”! – comenta.

Mais uma questão levantada por Rubens, se volta à conscientização das pessoas e empresas: Não é todo mundo que sabe que o esporte, ou outras atividades, podem ajudar a melhorar sua vida. “A empresa pode introduzir esta idéia para seus funcionários, e todos, saem ganhando. Um professor meu falava: no mínimo é muito mais gostoso aprender desta forma, praticando esportes”.


Conheça mais sobre o projeto C.A.R.E.



 
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