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Atletismo - Em dia com o esporte

19/9/2003, por Flávia de Almeida Prado


A história do Atletismo remonta ao surgimento do Homem no planeta. Desde o início do desenvolvimento dos Homo Sapiens, corrida, saltos e lançamento de paus e pedras – durante caçadas e lutas -; fazem parte do caminho de sobrevivência da espécie. É na história da Grécia Antiga que se encontram os primeiros registros destas atividades no âmbito do esporte e lazer.

Muitos pesquisadores dividem a história do atletismo em três fases. A primeira seria do surgimento das civilizações à extinção das Olimpíadas – determinada pelo Imperador romano Teodósio, no ano de 393 d.C.. A segunda é delimitada entre a Idade Média – mesmo que de forma descontínua e focada em treinamento dos exércitos – ao século XIX, quando o atletismo foi introduzido nas escolas inglesas por educadores vitorianos. Em 1896 dá-se o início da terceira fase com a volta dos Jogos Olímpicos – proposta do francês barão Pierre de Coubertin -; até os dias de hoje.

O século XX foi o palco para um enorme salto tecnológico, que atingiu e transformou a humanidade de forma nunca vista até então. A medicina, a indústria, a filosofia, a arte e claro os esportes foram aprimorados com uma velocidade determinante de resultados muitas vezes impossíveis de se imaginar.

Nos esportes, a superação de limites encontra o cenário mais emocionante. Quando um atleta quebra um recorde mundial o significado de seu feito alcança esferas que o surgimento de um novo computador, jamais alcançará. O esporte emociona e dignifica – assim é visto há anos, e por esta razão é assunto sério para governantes, educadores e pais.

Neste ano, o Mundial de Atletismo, realizado em Paris, foi o maior de todos os tempos. Reuniu mais de 1900 atletas, vindos de mais de 200 paises. A participação masculina ainda é maior que a feminina. Foram 1054 inscritos em provas masculinas e 848 nas competições femininas.

Esta foi a nona edição do torneio e sua importância cresce a cada ano. O atletismo engloba modalidades de exercícios físicos que embasam praticamente todos os outros esportes praticados atualmente. O jogador de futebol que não for um excelente corredor, saltador e arremessador, certamente não obterá sucesso nos campos. O mesmo acontece entre os jogadores de basquete, vôlei, handebol, etc.

Além desta característica fundamental e intrínseca, o atletismo, especialmente a corrida, abrange um público ainda maior, por ser simples de ser praticada e não demandar altos investimentos financeiros. Assim, os corredores de rua cada vez mais se espalham pelas avenidas do mundo, difundindo uma atividade antiqüíssima que por vezes foi mal vista e esquecida, nos lapsos da história da humanidade.
Provavelmente este erro não será repetido no futuro do mundo. A medicina já comprovou os benefícios trazidos para a saúde pela prática esportiva, a indústria cresceu e se transformou para atender as necessidades do público corredor. Além de produzir calçados adequados, tecidos leves e acessórios que ajudam a melhorar a performance dos atletas, dados de 2002 apontam que 300 mil empregos são gerados pela indústria do esporte. No Brasil, este setor movimenta em média R$ 31 bilhões, e no Mundo o valor salta para U$ 1 trilhão. Em reportagem publicada no Jornal O Estado de São Paulo em maio de 2002, “enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) nacional cresceu à taxa média de 2,25% de 1996 a 2000, esse segmento registrou aumento médio anual de 12,34% no período. Os dados são da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e constam de estudo encomendado pela Confederação Brasileira de Vôlei”.

 

Ponto de vista – Sérgio Luis Coutinho Nogueira – Mundial de Paris e atletismo no Brasil

Sergio Coutinho, renomado técnico fundador da equipe Funilence – hoje chamada BM&F – concedeu uma entrevista exclusiva ao corpore.org.br, e desvendou a estrutura do atletismo de hoje no país. Começou a praticar o atletismo aos doze anos, no Clube Paulistano. Assistia a São Silvestre, acompanhava outras provas de pistas, e etc. Depois de um tempo afastado do esporte, voltou a correr em 1987 e participou de provas da Corpore até 1992. Além delas, correu quatorze maratonas. Nessa época, fundou a Funilense, em Campinas. Era uma equipe apenas com corredores de rua da região. A equipe foi crescendo e, com o passar dos anos, melhorando seu desempenho. Neste meio tempo, foi presidente da Federação Paulista de Atletismo – de 1989 até 2000. “A Funilence é a equipe campeã Brasileira há 11 anos. Tornou-se a equipe BM&F em 2002. Todas as seleções brasileira, desde as Olimpíadas de Barcelona, 1992, foram compostas em maioria por atletas da Funilence” – contou Sérgio.

Quanto ao Mundial de Atletismo de Paris deste ano, Sergio explica que é importante entender que o grande número de participantes se deu ao fato de que alguns países vão como convidados. A Federação Internacional de Atletismo – a IAAF – para incentivar a participação dos países menores e mais pobres permite que estes levem até dois de seus atletas, mesmo que não possuam o índice mínimo para a competição. Estes atletas são subsidiados pela federação. “Então quando vemos nas competições a maioria dos atletas num nível, e de repente tem um que se sai muito pior, são estes atletas de países como Aruba, Tonga, etc, que não tem índice e a IAAF paga a passagem, e com isso acaba incentivando investimentos, etc, O que é muito benéfico”, explicou. Por este motivo, segundo o entrevistado, muitas vezes têm mais atletas participando dos mundiais de atletismo do que dos próprios Jogos Olímpicos.

Sergio acrescenta que nesta edição do mundial, o clima no país que sediou o evento estava muito quente. Este é um dos motivos que, segundo Sérgio, não houve tantos resultados bons. “Outro fator que prejudicou a performance, e deve ser dito, foi o controle mais eficiente e eficaz do Dopping. Muitos atletas foram suspensos por uso de substâncias proibidas, no mundo inteiro e isto é altamente positivo. Sou um ferrenho adversário do Dopping, e acho que ele deve ser condenado não apenas pelo mal que faz para o organismo do indivíduo – afinal ele assumiu o próprio risco -; mas primeiro pela falta de lisura na competição com aqueles que competem limpos e segundo pelo mal exemplo que se dá para a juventude, que está começando no esporte, e vê um atleta fazer uso de substâncias proibidas e se dar bem. Isto não pode acontecer e deve ser combatido”, afirmou.

O desempenho do Brasil, tanto nos Jogos Panamericanos, como no Mundial de Atletismo, foi aceitável, mas nada espetacular. Sergio analisa que as equipes de atletas brasileiros estão atravessando uma fase de transição. “Acredito que se a Maurren Maggi tivesse ido ela teria provavelmente ganhado medalhas, possivelmente o Ouro – baseado no resultado da atleta da França que levou a medalha em Salto em Distância, que a Maurren fez pelo menos umas dez vezes neste ano”. Segundo o técnico, nossos velocistas estão velhos, todos acima de 30 anos, e o país terá que esperar pela próxima geração para obter melhores resultados. Um alerta importante dado por Sergio, diz respeito aos programas de apoio aos esportistas: “O Brasil não tem nenhum programa oficial consistente para a nova geração. A BM&F adotou o atletismo e tem sido uma das únicas empresas a apoiar solidamente os jovens atletas. Os brasileiros da BM&F estão conquistando medalhas nos campeonatos Mundial Universitário e Mundial de Menores e pouca gente sabe disso.

As medalhas do Brasil em Santo Domingo foram conquistadas pelo Meio Fundo e Fundo – duas medalhas de ouro na Maratona do Vanderlei Cordeiro de Lima e Márcia
Narloch e uma do Hudson de Souza no 1500 e uma no 5000. “A gente sabe que no país o segmento menos apoiado é justamente o Fundo e Meio Fundo. É uma total contradição, mas acho que o resultado dos nossos velocistas foi adequado e razoável considerando nossa fase de transição”.

Ao avaliar os resultados do Mundial, Sergio aponta alguns fatores: Os EUA foram campeões do revezamento 4x100m com uma equipe totalmente reserva. O recordista mundial saiu por que se machucou, outro corredor passou mal, outro foi suspenso por indisciplina, então o time foi praticamente reserva. “Se pegarmos as demais provas, nos 800m, ganhou a Maria de Lourdes Mutola moçambicana que vem ganhando há muitos anos, mas teve um resultado um tanto fraco. No Masculino ganhou o Argeliano Djabir Said- Guerni, e uma coisa que deve ser dita é que muitos dos atletas favoritos não ganharam suas provas. Sobretudo no fundo e no meio fundo. Gail Devers nos 100m com barreira, a Gabriela Szabo no 5000m feminino – enfim, diversos não corresponderam às expectativas. Pelo calor ou por temerem o exame Anti-dopping. Fica a ponta de dúvida sobre o motivo destes resultados”.

Se fosse para escolher o melhor atleta do fundo e meio fundo, Sergio escolheria Hicham El Guerrouj “que ganhou fácil os 1500m e quase ganhou os 5000m”. Em sua opinião, a melhor prova foi a dos 10.000m, “pois os três etíopes chegaram praticamente juntos”. Outro fato que Sergio aponta foi a quebra do recorde mundial na Marcha Atlética, pelo polonês Robert Korzeniowski, nos 50km e “foi a grande performance do mundial”. Nos 20km masculinos o Jefferson Pérez do Equador também bateu o recorde, e segundo análise do entrevistado, vale lembrar que a prova da marcha foi às 7:50h da manhã, horário de temperaturas um pouco mais amenas na largada, e acrescenta: “a prova dura 3h30 e, portanto, terminou no calor, mas mesmo assim, eles quebraram o recorde. Por isso considero o desempenho tão bom”.

O Brasil não participou do mundial nos 50km da marcha, pois seus atletas haviam marchado nos Jogos Panamericanos. Na marcha de 20km, Sergio Vieira Galdino foi o 24º colocado, e como havia marchado 50km quinze dias antes no Panamericano, Sérgio não acredita que este resultado deva ser levado em consideração.“Ele foi mais para marcar presença do que pra competir”.

O Brasil não acompanha o desenvolvimento do esporte que acontece no restante do mundo. A indústria do esporte no Brasil movimenta uma quantia enorme de dinheiro, entretanto os altos investimentos são feitos no futebol. Sergio coloca ainda que confederações, federações, e comitês olímpicos não deveriam se dedicar à prática de eventos, pois estes consomem uma parcela grande de recursos. Se, por exemplo, o Brasil será a sede do Panamericano, então, segundo Sergio, deve-se formar uma fundação independente, privatizada e com o apoio governamental, para fazer a iniciativa privada se envolver. “O projeto de São Paulo para os Jogos Olímpicos é um pouco assim. As corridas de rua tão aí para mostrar: a Corpore tem feito provas extremamente organizadas, uma série de corridas por ano e não recebe verba de ninguém. Tem o patrocínio de algumas empresas, arrecada nas inscrições e faz as provas. Mesmo as empresas que organizam corridas com fins lucrativos, não pegam dinheiro na Caixa Econômica pra fazer isso. Os eventos devem ser mais privatizados e mais patrocinados”, acrescenta.

Na opinião do entrevistado, a delegação que mais surpreendeu foi a da Ginástica Olímpica. Isto por que investiram o dinheiro, recebido do comitê olímpico brasileiro, na montagem de um centro de ginástica, de uma estrutura, investiu nos atletas, na contratação de técnicos e no treino da equipe. “Ao invés de organizar um campeonato e trazer as melhores ginastas pra cá, treinaram nossas atletas para mandá-las competir lá fora. Que é o que deve ser feito. No caso do atletismo, estamos no caminho errado: muitos eventos e pouco investimento na formação dos atletas e dos técnicos. Não há um programa feito para incentivar nossos meninos. O atletismo tem muita verba: tem a Caixa Econômica, a Olimpykus, o Comitê Olímpico, mas isso não se traduz num programa efetivo”.

Sergio afirma que os programas devem ser de pelo menos quatro anos, com reavaliação semestral ou bimestral. Há federações que já estão com projetos mais longos, mais efetivos e este exemplo deve ser seguido. “Quem quiser fazer um programa para ter efeitos em 2008 deve começar agora! E tem que escolher os atletas, muito bem. Atletas que poderão chegar a 2008”.

Para centralizar os atletas e poder criar um centro com os profissionais necessários para melhorar o treinamento, a BM&F investiu na reforma do Ibirapuera e criou um alojamento. Notadamente no Rio de Janeiro, segundo Sergio, perdemos muitos talentos, pois os meninos se perdem no meio do caminho. Isso sem falar na região nordeste do país, onde os talentos não são perdidos, eles, na verdade, não são reconhecidos. Isto porque, principalmente nesta região do país, ainda muito jovens, os atletas têm de parar de treinar e começar a trabalhar. Ao levar em consideração que o Brasil tem mais de 170 milhões de habitantes, o desempenho do atletismo do país pode ser considerado lamentável. As equipes perdem de países pequenos como Cuba, brigam com times do México, etc. “Deveríamos ser muito melhor que eles. Nosso povo tem características físicas muito melhores e mesmo assim não vamos pra frente. A BM&F consegue sustentar os atletas paulistanos, e mesmo trazer alguns atletas de outros estados para cá, mas não tem como garimpar e sustentar todos. Isso tudo que falei poderia ser fácil de fazer. Entretanto, uma andorinha não faz o verão. Muitos dos atletas que estão por aí fazendo sucesso hoje foram formados pela BM&F. Isto mostra que a base de um projeto melhor estruturado realmente tem resultados. Como a música diz: ‘vem vamos embora que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora não espera acontecer’. A BM&F está fazendo acontecer”, concluiu.





 
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