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10 anos de Contra Relógio - Entrevista com Tomaz Lourenço


A revista especializada em corridas, Contra Relógio, comemora neste mês de outubro 10 anos de existência. Por se tratar da primeira revista deste segmento, publicada no Brasil, a Corpore visitou a sede da publicação e entrevistou seu fundador e editor, Tomaz Lourenço. Veja abaixo como foi este bate papo.

Corpore.org.br: Como a revista é feita, e qual o seu papel para os corredores?

Tomaz: A revista tem colaboradores fixos, e eu faço todo o trabalho extra e de edição. Ela se divide, na primeira parte em coberturas de corridas. Ela sempre teve este foco, fornecendo muitas fotos e resultados completos. Na segunda parte, tem as seções fixas como colunas de saúde, nutrição, fisiologia, treinamento, saiba mais, o espírito do corredor, calendário, etc. E, geralmente, também publicamos coberturas de eventos no exterior. Recentemente, abrimos espaço para que os assinantes que viajam e correm provas fora do país publiquem matérias. Sempre mandam textos sobre as corridas de Paris, Nova York, Chicago. E de vez em quando lugares estranhos e desconhecidos. E é uma forma de divulgar estas provas sem ter que enviar um correspondente. Eu, algumas vezes, também participo e depois escrevo a matéria. Mas esta interação do assinante é muito interessante. Algumas vezes, recebo mais de uma matéria sobre algumas provas, e tenho que escolher apenas uma delas para publicar. Por isto que não é mais tão complicado fazer a revista praticamente sozinho.

Corpore.org.br: E como é o processo de elaboração da revista?

Tomaz: Depois de 10 anos de experiência, já temos a estrutura pré-preparada, o que facilita o trabalho. Hoje, a maioria das fotos é enviada via Internet. No começo obtínhamos apenas fotos em papel, e então tínhamos que mandar scanear fora, o que deixava o processo mais demorado. A Internet pra mim, como para a imprensa em geral, significou um belo salto. Todos os textos passam por mim e faço algumas coisas também, como o editorial, a edição das enormes cartas que devem ser reduzidas a apenas algumas linhas, a cobertura das corridas, etc.

Corpore.org.br – E como surgiu a idéia de fazer uma revista para corredores?

Tomaz: A edição de outubro conta como foi o início desta história. Sempre pratiquei esportes. Fazia ciclismo, judô, natação. Comecei a correr, de farra. Era ciclista amador e todo começo de ano, parava com a bicicleta, e praticava outro esporte para variar. Comecei a gostar demais de correr. Naturalmente, como jornalista, fui procurar algo para ler e não encontrei nada. Na verdade, na época (1989/1990) encontrei o livro do James Fixx “Guia completo de corrida”, mas ele escrevia para o público americano. Na época participava de algumas provas, mas não existiam muitas, além das tradicionais, como a São Silvestre, Mini-Maratona da Gazeta, enfim, e as provas eram desorganizadas. A Corpore era pequena ainda. Foi então que comecei a pensar em fazer uma revista.

Corpore.org.br – Foi difícil levantar investimentos para lançar a revista?

Tomaz: Estava enjoado do meu trabalho de editor em uma revista técnica, e acabei mergulhando na idéia da Contra Relógio. Falei com algumas pessoas, uns me estimulavam, outros não. Muitos achavam que por não existir, até então, uma revista sobre corrida, era um sinal de que não existiriam leitores para tal. Fiz um levantamento de custo. Tive acesso a uma pesquisa da Editora Abril. A editora havia pensado em lançar uma revista de atletismo e corrida de rua, mas eles pretendiam numa tiragem de no mínimo 50 mil exemplares, pois para eles, abaixo disto não seria interessante. Acabaram desistindo da idéia. Fiz a avaliação de custo, no começo foi devagar, mas tive boa receptividade. Lembro-me que antes de sair o primeiro número já havia conquistado cerca de 300 assinantes. No começo foi tamanho o número de assinantes, que demorei pra pensar em publicidade. Hoje temos cerca de 7 mil assinaturas. Depois que eu lancei a revista, conheci, por meio do meu dentista e colega corredor, a revista Viva – que era bem focada na Meia do Rio. Mas a Viva durou pouco.

Corpore.org.br – E qual foi a repercussão deste trabalho?

Tomaz: Não tenho modéstia nenhuma em dizer que a história da corrida no país é dividida em dois momentos: antes e depois do lançamento da Contra Relógio. Existem exceções, com a Corpore, que sempre organizou corridas boas. No começo menores, hoje maiores e melhores. Mas sempre foi uma exceção. A São Silvestre era um caos. Lixo de corrida. Antes da revista, fazia-se fila na chegada, não havia um banheiro se quer disponível para os corredores. Ficou famosa uma foto do Arturo Barrios urinando embaixo do MASP, corredor mexicano que venceu aquela edição da São Silvestre. A foto foi para a primeira página da Folha de São Paulo. Não entregavam medalhas, nada...

Corpore.org.br – Então a revista teve um papel bastante crítico no início?

Tomaz: A revista sempre se baseou em um tripé - informação objetiva, cobertura das corridas e resultados – valorizando a corrida e o corredor-; e a defesa do atleta, para evitar o caos das provas. Teve uma época em que sinalizávamos com uma mãozinha com o polegar para cima ou para baixo, avaliando o evento em bom ou ruim. Mas comecei a achar que em alguns momentos poderia parecer arrogante de minha parte esta avaliação, pois muitas vezes a crítica era feroz demais, não tendo um sinal para “evento razoável”. Então, parei de fazer criticas tão rigorosas. Mas como nosso trabalho tinha uma repercussão muito grande, as melhoras nas corridas começaram a acontecer. Sempre achei um absurdo, por exemplo, não ter banheiros nos eventos, principalmente para as mulheres. Já vi situações muito constrangedoras, pelas quais elas não precisavam passar. As largadas não aconteciam no horário, não havia distribuição de água no percurso, trânsito descontrolado, a premiação demorava horrores... Mas isto mudou e vejo isto como a história de 10 anos de estrada e contato com o corredor.

Corpore.org.br – Como diretor de Corridas de Rua da CBAt, como pode influenciar também nestas mudanças?

Tomaz: Comecei a defender a idéia de que as corridas de rua passassem a ter um rigor técnico. A São Silvestre, por exemplo, ninguém sabia sua real distância, apenas que ela tinha por volta de 15km. Assim como com ela, batalhei para que as corridas de maior expressão tivessem algum rigor técnico, como, pelo menos, aferição do percurso. Paralelamente a isto, para aumentar o conforto do corredor, a revista começou a opinar, por exemplo, em como deveria ser dada a água. Hoje, a maior parte das provas fornece água fria ou gelada. Isto antes não existia. Havia uma idéia de que água gelada causaria dor de garganta, e muitas pessoas ficaram surpresas ao ler na revista que a água gelada é mais hidratante. As distâncias entre os postos de hidratação, a organização do funil de chegada, etc. As filas prendiam os corredores antes da linha de chegada, devido à confusão que se instalava no funil. Com a exigência de uma melhora técnica na organização, a situação começou a melhorar.

Corpore.org.br – Como você enxerga o crescimento das corridas de rua no país?

Tomaz: As provas de hoje, em São Paulo principalmente, funcionam direitinho. Mas o perfil da cidade é diferente do restante do país. Os personal trainers, por exemplo, são típicos daqui. No Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Nordeste, Sul, etc, existem poucos profissionais da área atuando como em São Paulo. Até por isso, tem muita gente correndo sem a pretensão de participar de provas, treinando sozinho etc. Acredito que se formos até uma das praias do Rio, e entrevistarmos aquelas pessoas que correm nos calçadões, a maioria delas vai dizer que não participa de provas, não lê revistas sobre o assunto, e não se preocupa com performance. O número de corredores está crescendo sim, mas na cidade de São Paulo e concentrados nas provas da Corpore. As maratonas estão com números estacionados ou decrescentes. Neste ano, a maratona de Blumenau teve 800 participantes, no ano passado teve 700. Fica nesta base. A de Porto Alegre teve menos inscritos, assim como a de São Paulo. No Brasil, acho complicado correr maratonas devido ao calor. Em São Paulo, o número cresce, pois temos mais dinheiro para treinamentos orientados, recursos, o grande número de habitantes, etc. As inscrições das provas da Corpore têm um preço que, apesar de considerado caro por algumas pessoas, corresponde ao produto entregue, ou seja, as provas têm alta qualidade. Esta é a realidade, e a revista ajudou a melhorar e aumentar o número de corridas de rua no Brasil.

Corpore.org.br – Hoje a Contra Relógio não está sozinha no mercado. O numero crescente de publicações neste segmento aponta o sucesso da revista e também do aumento do público leitor?

Tomaz: A concorrência que surgiu do ano passado pra cá, é extremamente positiva, pois valorizou o segmento. Antes a CR era uma voz sozinha, e agora temos mais força. A revista está consolidada, e eu estava um pouco acomodado. Com as novas publicações me senti estimulado. Plastificamos a capa, fizemos campanhas de assinaturas - fornecendo brindes como bonés e meias, e mês que vêm vamos dar porta chips e réguas de monitoramento cardíaco. Com isto, muita gente voltou a assinar a revista. Temos uma nova dinâmica, muito boa. A revista tem como diferencial a cobertura e resultados completos das provas. O corredor gosta de ver isso. A valorização que a revista dá ao atleta, do primeiro ao último colocado, é uma característica única que acho fundamental. Muitos deles se esforçam muito para chegar, são ex-obesos, por exemplo, que quando cruzam a linha de chegada sentem uma vitória pessoal. Publicar apenas os cinco primeiros colocados é uma idéia inconcebível para mim. Assim como dar medalha apenas para os 100 primeiros colocados. Os corredores que chegam em último merecem uma medalha de mérito por sua participação. Hoje a situação é bem diferente de anos atrás e fico grato em saber que colaborei para isso.


Fotos: Flávia de Almeida Prado



 
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Por: Flávia de Almeida Prado

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