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Mensagem na garrafa

13/09/2012, por Paula Diniz
Eis a coluna da revista Runner´s World de setembro, por Sérgio Xavier Filho.

     O número até me assusta. Em meus quatro anos de blog Correria, escrevi 913 posts. Falei de tudo e de todos. Histórias de todos os tipos, relatos, opiniões, polêmicas. Nenhum post me comoveu mais do que o publicado em 6 de abril de 2009. Transcrevo um resumo abaixo e depois sigo...
 
      “O nome dele é José. E é um bravo. Na verdade, José Henrique Coutinho Filho, vendedor de picolés. Foi o 256° colocado da meia maratona de São Paulo de 2009. Terminou os 21 km em 1h29min48, tempo que lhe garantiu o 12° lugar na faixa dos 50 a 54 anos.
 
      O feito de José não se explica apenas na belíssima classificação. Estive no domingo na USP para a meia maratona da Corpore e nada me chamou mais atenção do que a história desse senhor. José vende picolés no Recife e sonhava em participar da corrida. Para pagar a passagem de avião, a hospedagem e a alimentação, teve que trabalhar dobrado. Perguntei a ele quantos picolés foram necessários para o sonho virar realidade e quase gelei quando ouvi a resposta: cinco mil. O sujeito deve ter suado mais com o isopor nas costas do que todos os treinos longos de um corredor como eu. Chegou a São Paulo no sábado, passou a tarde perdido no metrô tentando entender os mapas. Com sua amiga recifense, descolou um hotel barato. Tímido, José fala baixinho. Foi a amiga que confidenciou a decepção com o tempo. “Ele faz normalmente a meia em 1h19min”. Eu acredito. Com esse tempo, José teria ficado em segundo lugar na sua faixa etária.

       A diretoria da Corpore descobriu a história logo após a chegada. Deu um jeito de trazer o valente corredor para o espaço mais Vip da USP. Não existia ninguém entre os 6300 finalistas da prova mais importante do que José. Ele era a verdadeira tradução da expressão “Vip”. Suco, café, sanduíches, e José foi se recuperando. Depois, voltando para casa, me dei conta do gesto da Corpore. Maior associação de corredores do Brasil, uma das principais organizadoras de provas, a Corpore montou seu espaço Vip justamente para tratar com conforto os corredores dispostos a pagar 150 reais por muitos mimos. Mas José está na origem da Corpore, que nasceu como clube de corredores justamente para patrocinar gente como o pernambucano. E a empolgação da diretoria da Corpore com o feito do pequeno homem era indisfarçável. Se bater a preguiça em alguma manhã vadia, lembre-se de José. O homem que vendeu cinco mil picolés apenas para poder correr.”

      Pois três anos após ter escrito isso, a história segue mexendo comigo. Cinco mil picolés! O amor pelo esporte não costuma ser medindo em números, eis uma exceção. Cinco mil picolés. Uso a coluna da Runner’s como um bilhete jogado ao mar dentro de uma garrafa. Espero que as marés levem minha garrafa até alguma praia de Pernambuco. E que lá alguém leia minha mensagem e me traga notícias de Zé.

Fonte: Revista Runner´s World - setembro/2012.
www.revistarunners.com.br
 


 
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