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Minha História: Humberto Oliveira

10/12/2013, por Humberto Oliveira
Começar a correr não é fácil e não traz resultados imediatos. Começar a correr no frio, sozinho e pesando 114 kg, então, soa como uma missão impossível.
 
Em março de 2011, meu pai estava indo aos EUA e pedi para que ele me trouxesse “um tênis de corrida”. Não especifiquei marca, modelo e muito menos sabia que existia um tênis pra cada tipo de pisada. Apenas falei que queria começar a correr e, já que ele estava indo para lá, que me trouxesse um tênis, se possível. Por coincidência - ou sorte -, meu pai me trouxe um Vomero, da Nike. Só mais tarde descobri que o tênis era adequado ao meu tipo de pisada. 
 
Peguei meu tênis e, sozinho, fui para o Parque do Ibirapuera, às 6h da manhã de uma terça feira fria, para começar “a correr”. Obviamente, com 114 kg, o máximo que consegui foram alguns poucos metros de trote e muitos de semi-óbito. Joguei futebol por dez anos, nunca fui nem gordinho. Mas, em 2005, fui morar no Canadá e em um ano e meio havia engordado 30 quilos. 
 
Nunca entendi por que, já que minha alimentação era super saudável: Coxinha e Coca-Cola no café da manhã, cinco donuts de sobremesa, churrascos e mais churrascos no jantar e, quando percebi, lá estava eu obeso: 114 quilos de puro prazer alimentar. E o pior era que eu não me achava gordo. Ou melhor, não me sentia gordo.
 
Vivi entre salgadinhos, refrigerantes, doces e churrascos durante seis anos. E, para ajudar, nunca mais tinha praticado nenhum tipo de atividade física. Fiquei acomodado e não me importava com o meu peso nem com a minha aparência. Entenda aqui por aparência não beleza, forma física ou algo fútil. Aparência, nesse caso, é o modo de agir ou como as pessoas te enxergam, mesmo. Ser o gordinho engraçado da turma ou o ponto de referência em shopping centers estava começando a me incomodar.


 

 
Então, numa bela manhã de uma fria terça-feira, parti para o Parque do Ibirapuera para começar a correr. No primeiro dia, como citei acima, foram somente poucos metros e a certeza de que o desafio seria grande. E foi ali, no meu primeiro dia, que eu coloquei uma meta. Um dia, eu correria uma prova de 10 Km. Naquele momento, não passava de um sonho absurdo. Não só pra mim. Em muitas das pessoas para quem eu contei que iria começar a correr, senti um tom de desaprovação ou de “só acredito vendo”. Não creio que as pessoas estivessem sendo maldosas comigo. Mas sim que eu mesmo havia dado motivos para que elas não acreditassem em mim. Eu era obeso, era quem  mais gostava de comer, era quem tirava as pessoas da dieta e, de repente, falo que vou virar atleta?

Como eu não fazia a menor ideia da existência das assessorias de corrida, chegando em casa, baixei um famoso aplicativo americano chamado “Couch to 5K”, que promete levar do sedentarismo aos 5K, como se diz entre os corredores, em 12 semanas. Era daquilo que eu precisava. Juntamente com meu aplicativo personal trainer, comecei minha dieta. Sem nutricionista. Somente com dietas da internet.
 
Comecei treinando 3 vezes por semana no parque, e fechei a boca pra tudo o que me fez ganhar os 30 quilos: doces, salgadinhos e refrigerantes. Na primeira semana, achei que iria enfartar de tanta vontade. Mas, aos poucos, fui me controlando e, quando me dei conta, com alimentação regrada e meus treinos de corrida, tinha perdido dez quilos no primeiro mês.
 
A corrida começou a se tornar a melhor parte do meu dia. Não somente porque me fazia perder peso. Mas porque me fazia feliz. Sempre fui muito inseguro e a corrida me dava “o poder” de querer mais, de ir além de tudo que eu havia imaginado para mim. Quanto mais eu corria, mais eu queria. Até que, em 45 dias, eu completei minha primeira volta (3 Km) no Ibirapuera, sem andar. Foi uma vitória e uma emoção enorme. 45 dias antes, jamais pensei que aquilo seria possível. Então, logo pensei que, em breve, poderia tentar  uma prova de 5 Km.
 
Treinei com essas planilhas de sites de corrida durante dois meses, visando essa prova de 5 Km. Em maio de 2011 fiz a minha primeira prova de 5K em ”incríveis” 37 minutos. Naquele momento, mesmo gordinho, mesmo quase desmaiando, mesmo todo vermelho e acabado, eu pensei: “Isso vai fazer a diferença na minha vida e vai me fazer muito feliz.”
 
A partir daí, foquei nos treinos e na alimentação. Em junho, fiz mais uma prova de 5K, em 34 minutos. Comecei a ver meu sonho dos 10K mais próximo. Então, agendei minha primeira prova de 10K. A Track & Field Center Norte, em setembro de 2011, mas com uma grande diferença: eu já tinha perdido 25 quilos, de março a setembro. Corri feliz, corri em ritmo de comemoração, não importava meu tempo, não importava meu estado quando terminasse a prova, eu sabia que o meu sonho seria alcançado naquele dia. Quando cruzei a linha de chegada, um filme passou pela minha cabeça: aquela terça feira fria, aqueles 114 kg e, principalmente, a desconfiança, a descrença de muitos que naquele momento iriam por água a baixo. Nunca me senti tão bem, tão realizado. Os 10K haviam chegado.


 
Na semana seguinte entrei no site do Circuito Athenas para me inscrever para a última etapa,que seria realizada em novembro de 2011. Essa última etapa teriam 2 provas: 10K e 21K. Resolvi me inscrever nos 21K! Loucura, besteira, insanidade, chamem do que quiserem, mas me inscrevi. Na sequência marquei uma consulta com  um ortopedista, um cardiologista  e um clínico geral (não, eu não havia feito nada disso antes de começar a correr. ERRADO!).
 
 Meu ortopedista disse que foi um milagre eu não ter me contundido até ali e não ter tido nenhum desgaste também. Para ele, fazer a meia maratona seria arriscado, mas que era pra eu iniciar os treinamentos (estávamos há dois meses da prova). Em um mês, eu deveria retornar para uma avaliação, para saber se estava com algum princípio de lesão ou coisa do gênero. Após todos os exames, fui ao cardiologista e ao clínico geral para analisarem meus resultados. Coração zero, nenhuma arritmia, nenhum problema: milagre! O clínico geral era a minha maior preocupação. Como já havia tido úlcera no estômago, por causa de uma gastrite e gordura no fígado, três anos antes, achei que poderia ter algum problema relacionado. Também zerado.
 
Ou seja: eu estava pronto pra Meia Maratona, Brasil!
 
No dia da Meia Maratona, eu havia perdido, ao todo, 30 quilos, em 9 meses. Corri solto, feliz, tranquilo. Meu coração batia forte de felicidade e não de preocupação ou  por algum problema. Fiz a prova lembrando de cada momento-chave pra chegar até ali. Todos os amigos que me apoiaram (sim, eles passaram a ter orgulho da minha mudança e do meu foco), a minha família que sempre esteve comigo. Mas, principalmente, eu "ME comemorei". Eu estava orgulhoso, radiante e com uma energia que jamais havia tido na vida. Fechei meus primeiros 21 K em 2:12:36.
 
Agora já era um corredor de respeito, não?!
 
Em março de 2012, finalmente entrei em uma assessoria de corrida, já mais magro e agora em busca de resultados. Foquei nos treinamentos, melhorei meus tempos e uma pergunta não parava de me perseguir: QUAL SERÁ A MINHA PRIMEIRA MARATONA?
 
Depois de conversar com meus treinadores e de muito pensar, decidi: seria em Amsterdã, em Outubro de 2012. O desafio estava lançado e, obviamente, minha sorte também.
 
Fazer uma maratona é fácil. Acreditem. Treinar para uma maratona é o complicado (e MUITO chato). Os longões de 32K e 34K na USP parecem intermináveis, não somente pelo desgaste, mas pela monotonia do treino mesmo. Mas, depois de cinco meses de treinamento, muitos quilômetros, muitas festas perdidas, regime intenso e pouco álcool, lá fui eu para Amsterdã tentar concluir meus primeiros 42 Km. 
 
Na largada, aqueles quenianos, marroquinos e etíopes colocavam uma pressão extra no desafio. O clima era diferente, a emoção era diferente e o mais importante: a motivação era diferente. A largada aconteceria em ondas e eu, posicionado para a oitava onda, estava ali, com uma mistura gigantesca de medo, alegria, euforia e exaltação. Comecei a chorar antes mesmo de largar. A emoção tomou conta daquele cara que um ano e meio antes só fazia maratonas gastronômicas. 
 

 
Largamos com frio, aquele mesmo frio que eu senti no Ibirapuera, tempos antes. Aquele mesmo frio que tomava conta da minha barriga. A incerteza de onde aquilo iria dar. As pessoas na rua, a paisagem, o clima: tudo favorecia o meu momento. Era a conclusão de um ciclo, o fim das provações e das dúvidas. Naquele dia, eu iria provar pra mim mesmo que tudo tinha valido a pena. E como dizia o querido e finado cantor Chorão: “O impossível é uma questão de opinião”.
 
O percurso era fantástico: moinhos de vento, crianças dando a mão para que você batesse, idosos gritando o seu nome. A corrida te proporciona uma emoção e um poder que nenhum outro esporte pode proporcionar. A corrida depende de você, do seu esforço, da sua vontade. Ninguém pode te atrapalhar, ninguém pode fazer aquilo por você. A corrida é tão fascinante, que largamos felizes, emocionados, mesmo sabendo que não existe a menor possibilidade de ganharmos a prova. Na corrida a vitória é pessoal. E eu estava ali, pronto para vencer mais uma vez.  
 
No quilômetro 32, onde muitos desistem, ou “quebram”,como nós corredores costumamos dizer, passei tranquilo. Comecei a sentir dores, e muitas dores, no KM 39. Fascite plantar das bravas. Não conseguia quase pisar no chão. Ali você percebe o quão difícil é fazer uma maratona, o quanto você não está preparado para tudo. Mas corri com um amigo e, durante todo o percurso, fomos nos motivando. Percebemos que faltavam apenas dois quilômetros para que ambos realizássemos o grande sonho dos 42.195 metros. No quilômetros 41 ouço um: “VAI BETO!!!” Era Mário Sérgio, diretor técnico da Run & Fun, que me incentivava no último quilômetro restante. Ali não importava mais a dor, sofrimento, o cansaço. O que me vinha à cabeça eram as pessoas que me incentivaram a chegar até ali e que foram representadas por aquele “VAI BETO!!!” do Mário.
 
Entretanto, o que o que não me saía da cabeça era que aquela era a minha hora, o meu momento.

Entramos no Estádio Olímpico de Amsterdã, gritando, sorrindo, chorando. A emoção tomou conta de mim e a partir daquele momento, após 4:14:12, eu me tornava um maratonista.
 
Hoje, continuo a bater meus tempos. Fiz meia maratona em 1:29:26 e a maratona de Buenos Aires deste ano em 03:17:48. Ah, eu completei os 37 quilos perdidos!

Fotos: Arquivo Pessoal



 
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