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Medição - Série de Reportagem - Voluntários que fazem a Diferença

26/2/2003, por Flávia de Almeida Prado

“O Corredor se tornou um consumidor exigente”
– Bob Baumel – autor do manual de medição de corridas de rua da RRTC
(Road Runners Technical Council)

 

Em janeiro lançamos aqui no site uma série de reportagens com nossos Diretores voluntários – pessoas que fazem da Corpore uma entidade diferente das outras. Nosso entrevistado do momento é o responsável pelas medições das provas, José Rodolfo Eichler, IAAF/AIMS ‘A’ Measurer, Administrador de Medição da América do Sul e Membro do Conselho Deliberativo Corpore. Conheça um pouco mais sobre a história deste corredor, que com seu trabalho trouxe para o Brasil a qualidade das corridas internacionais.

 

Em 1991, Rodolfo Eichler mudou-se do Rio de Janeiro para São Paulo para trabalhar em duas empresas de engenharia. E foi neste ano que correu sua última maratona, em Blumenau. No total foram treze. Devido ao ritmo puxado que sua profissão lhe impôs nesse ano, Rodolfo passou apenas a correr em provas menores, sem participar das organizações – como fazia desde 1979. Entretanto, passado um tempo, se engajou com a Corpore, para medir os percursos de suas provas. “Vitor Malzone, Julio Deodoro, e o Vasco - ex-diretor técnico da Corpore - são as três pessoas que criaram a base do que é hoje o movimento de corrida, devido à seriedade com que trabalhavam, desde os primeiros anos”.

Rodolfo conta que foi coordenador da Maratona do Rio até sua última edição (pelo Jornal do Brasil), e que depois, ela sofreu algumas metamorfoses. Estas mudanças fizeram com que ela perdesse sua identidade, algo que Rodolfo aponta como fundamental para caracterizar uma grande prova. “As grandes provas precisam ter conceito, precisam ter um espírito por trás delas. Assim é com a Maratona de Nova York, de Boston – nos EUA, com a São Silvestre, com a São Paulo Classic da Corpore, com a Meia Maratona Corpore, aqui no Brasil”. Este é o trabalho desenvolvido pela entidade: fazer com que as provas gerem histórias, disse Rodolfo. Acrescentou também que quando o atual presidente David Cytrynowicz assumiu, juntamente com a atual Diretoria, em meados da década de 90, a cara da Corpore mudou, evoluiu.


"A atual diretoria da Corpore trouxe um fator novo para a corrida de rua, que foi este espírito do novo, do desafio, da aventura. Campos de Jordão, Ilhabela, largada dual, largada feminina anterior à geral. Isso tudo, sempre com o uso da tecnologia mais nova. Aceitar este desafio como parte do processo é o grande diferencial da Corpore, além de não executar provas por demanda, nem por encomenda".

Ivan G. Junior - medidor credenciado - (esquerda) junto a outros medidores
Foram cerca de vinte anos de história, desde 1979, que do começo nem tênis próprio existia para o corredor. A medição não era legal, as classificações de algumas provas daquela época nunca saíram. “Hoje chegamos a um ponto de equilíbrio de ter um órgão como a CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) – que se preocupa em criar as instruções e regulamentos necessários – assim como as Federações regionais e organizadores de corridas, como a Corpore, para realizar provas de nível internacional”.
Rodolfo avalia que o fato do Brasil sediar os jogos Pan-Americanos de 2007 mostra que estes anos foram fundamentais para que este espaço fosse conquistado. “O próprio corredor teve estes vinte anos pra evoluir na sua postura, no seu profissionalismo, no seu acompanhamento técnico, na sua alimentação, etc. A Corpore também teve esse tempo, para criar este cenário ideal, que possibilita ter hoje, uma vez por mês, uma prova realmente bem feita”.

A medição das provas
Os critérios de medição pouco mudaram nestes vinte anos. Foi o americano Ted Corbitt, que a pedido do Clube de Corrida de Nova York, bolou o sistema de pontos, que é usado até hoje. Antes, era usada a roda calibrada, que a cada virada mede um metro. O uso de moto ou carro para realizar a medição causa erros muito grandes, segundo Rodolfo. A bicicleta parecia ser o ideal, pois ela pode ser mantida em caminho retilíneo, e tirar a tangente, a procura do caminho mais curto.


Exemplo de trajeto sem tangentes

Faltava então, um instrumento que pudesse ser adaptado à roda da bicicleta e que fosse certificado, ou seja, atendesse os requisitos para os quais foi projetado, e com total efetividade. A partir desta necessidade, Alan Jones, corredor e pequeno industrial, se responsabilizou pela fabricação deste aparelho – que foi usado pela primeira vez na Maratona Olímpica de 1976.

Ao longo dos anos, foram feitas algumas mudanças no material deste modelo, mas sua concepção não foi alterada. “Ele não mede nem centímetros nem metros, mas a quantidade de pontos numa determinada distância” explicou Rodolfo.

Representação do aparelho acoplado à roda da bicicleta

O que se faz é a marcação de mil metros no chão (com fita de aço calibrada), e então é feita uma associação com a quantidade de pontos que um quilômetro tem idealmente e, então, dependendo do peso do ciclista, do peso da bicicleta, da pressão dos pneus, “Você pedala por essa distância e calcula a quantidade de pontos. A cada vez que você passar por tal quantidade de pontos, significa que andou um quilômetro” disse o medidor. Este processo, de calibragem do aparelho, é realizado no inicio e no final na medição. Pessoas diferentes apresentam quantidade de pontos diferentes, entretanto, sempre uma quantidade equivalente a um quilômetro. Inclusive, segundo Rodolfo, os medidores usam deste recurso para certificarem que a medição foi feita corretamente. “Este processo implica que a pessoa tenha muita autocrítica, para que aceite refazer aquilo que não ficou bem feito. Precisa de capricho para que a prova fique na medida exata”.


Marcação do chão com a fita de aço - Isolamento da área pela polícia


Explicação da montagem do aparelho à roda da bicicleta

Saiba mais no site da AIMS

 
Primeira Maratona Corpore – Uma prova singular

A Primeira Maratona Corpore acontecerá inserida dentro de um grande evento que já ocorre desde 2000 – a Meia Maratona Corpore, e os 6k Corpore/Exército Brasileiro. Seu percurso será em loop – duas voltas no percurso da Meia Maratona. Segundo Rodolfo, o loop concentra a prova, ou seja, concentra o público, a família num único lugar. “Trazer as pessoas para um parque, possibilita que elas se sentem embaixo de uma árvore e acompanhem o evento, sem necessidade de deslocamento para a largada, como acontece em Nova York. As primeiras Maratonas do Rio também foram assim, no parque do aterro do Flamengo, então, de certa maneira, estamos resgatando aquela tradição”. Muitas provas ao redor do mundo estão sendo feitas deste modo, e em provas de revezamento este modelo é fortemente recomendado, informou Rodolfo.

Sobre os modelos de percursos, Rodolfo citou além do loop, os de ponto a ponto - quando suas situações de largada e chegada, são distantes em mais de 10k -; que também são comuns, mas que levantam preocupações diferentes, como a influência do vento. “Numa prova de rua, ninguém se preocupa com o vento, mas nas provas de pista, de velocidade, a IAAF já desconsiderou recordes por esta ajuda das correntes de ar. Não é verdade que o percurso em loop piore o resultado. Na verdade evita que a prova se torne monótona, ou que apresente uma logística complicada e assistência dispersa. Ele facilita inclusive o trabalho do órgão de trânsito, pois evita que seja necessário um grande contingente de funcionários e de material”.

Rodolfo Eichler contou que o trabalho pra planejar esta prova é grande, mas que seu perfil não é desvantajoso para a organização. “A Corpore tem a característica de buscar desafios, e o associado Corpore gosta disso, caso contrário as corridas não estariam sempre cheias. Acredito que o corredor vai apreciar bastante este evento e a proximidade de sua família - que poderá acompanhar melhor a prova”.

Os diretores da Corpore têm no sangue o espírito da aventura, contou Rodolfo, “e o público tem gostado”. Numa maratona em loop, os cortejos devem ser muito bem monitorados, feito por pessoas experientes, assim como os batedores da Polícia Militar. “Tudo isso está no projeto de planejamento da Maratona da Corpore.


Equipe de Medição - membros brasileiros e americanos juntos

Da mesma maneira, A CET também participa da concepção, não meramente para liberar as ruas para o acontecimento da prova, mas também para que participem das soluções, colaborem, e possam monitorar o evento, com maior domínio”.

A complexidade da organização atinge até mesmo o controle das ultrapassagens dos corredores mais rápidos sobre os mais lentos. Além disso, simultaneamente, vai ser realizada a Meia Maratona, e uma prova de 6k. “A parte técnica é desafiadora, mas vai ficar bonito como um festival. Sem dúvida será mais difícil de realizar, mas trará uma satisfação maior para todos”.

A dificuldade não impossibilita sua realização. Este espírito de aventura da Corpore irá permitir que seja introduzida a largada dual, também baseada no modelo de Nova York. “Para aumentar o conforto do corredor, abriremos dois pontos de largada, paralelos e igualmente medidos, que irão convergir para um ponto comum do percurso. Que dá trabalho, dá! Mas isto é o melhor para o corredor”.

Além da largada dual, três corridas simultâneas e percurso em loop, já apontados por Rodolfo, o que também diferencia esta Maratona da Corpore, são outras preocupações com o conforto do corredor. Entre elas, o horário de início (7 horas da manhã), o caminho todo arborizado, a compatibilidade com um calendário anual, o percurso considerado flat (plano) que é mais confortável para assistência do atleta. Além disso, corredores de diferentes níveis poderão participar do mesmo evento.

O sistema do chip será implantado de forma completa – na largada, chegada e em pontos diversos do percurso, para todas as provas. Sua estrutura médica será pioneira, e o percurso será totalmente fechado ao trânsito – por ser concentrado na área de parque, será vedado aos ciclistas que atrapalham os corredores durante a prova.

A altimetria da Maratona não apresenta nenhuma elevação significativa. Não há elevações acima de cinco metros, e as que acontecem são das pontes pelas quais o corredor tem que passar, disse o medidor. Rodolfo acredita que a Meia Maratona irá motivar o resultado da Maratona, e explica: “Como a Meia é corrida pra 01:03:00, o corredor da Maratona vai acabar sendo puxado pela cabeça da prova da Meia Maratona. O tempo da Meia Maratona para a Maratona deve ficar em torno de 01:04:00 e 01:05:00. Isso projeta um tempo total muito bom para a Maratona, que pode ficar até 02:10:00/ 02:12:00”. Mas o medidor explica que isso vai depender do preparo dos corredores.


O início de tudo

Durante a visita de Cooper ao Brasil, em 1976, Rodolfo Eichler começou a correr, preocupado em manter sua saúde em dia. Corria sem grandes pretensões, e sem grande envolvimento com o movimento da corrida de rua. Isso mudou em 1979, quando foi realizada a Primeira Corrida de Rua do Rio de Janeiro, cidade onde morava na época. “Este foi o ano de início dos tempos modernos da corrida de rua no Brasil. Foi uma corrida muito pitoresca, de 8km, cujas inscrições foram vendidas numa barraquinha de sorvete. Tudo muito improvisado”.

No mesmo ano, a corredora Eleonora Mendonça (que representou o Brasil, na primeira maratona feminina das Olimpíadas) montou uma empresa de organização de corridas – chamada Printer - com a experiência que trouxe de sua estada nos EUA. Organizou, então, a primeira Maratona Internacional do Rio de Janeiro. “Nesta ocasião, vi no noticiário que a vencedora foi uma conhecida minha – Ivanise Lins e Barros. Com a influência positiva da Ivanize, passei a me encontrar todo domingo, nas Paineiras no Rio, com um grupo de corredores, liderados pelo jornalista José Inácio Werneck” contou o Conselheiro da Corpore.

Neste período nasceram a CORPORE em São Paulo e sua equivalente no Rio de Janeiro, a chamada Corja. Com apoio do Jornal do Brasil, outra maratona se organizou além da realizada pela Printer em 1979: a Maratona do Rio, já em 1980. Durante cerca de sete anos, o Rio de Janeiro teve duas maratonas por ano, devido à explosão no movimento da corrida de rua, mesmo estas provas tendo organização não muito profissional. “As distâncias eram aproximadas, a cronometragem era manual, a classificação era demorada, etc”.

O atual presidente do Clube de Corrida de Nova York, Allan Steinfeld, era, naquela época, o Diretor da Maratona de Nova York. Em 1980, ele fez o pedido ao jornalista José Inácio Werneck para que a Maratona do Rio também tivesse um medidor, para que ela pudesse se filiar a AIMS (Associação de Maratonas Internacionais) – que estava nascendo naquela época.

Orientação para os ciclistas encarregados da medição<-



Rodolfo realizando uma medição
 

A AIMS formou-se a partir de um grupo de diretores de provas, que criou uma entidade para que houvesse um padrão único, de boa qualidade, das corridas. “Então, José Inácio me indicou, não apenas para continuar fazendo a apuração das corridas, mas também para me preparar para fazer medição. Em 1981, o próprio Alan Steinfeld veio ao Brasil para me ensinar como fazer a medição da Maratona” – contou Rodolfo.

Já em 1982, a Maratona do Rio foi filiada à AIMS e medida seguindo seus padrões. “Nessa época, por fazer uma parte grande do trabalho, tornei-me o Coordenador Técnico da Maratona do Rio. Mesmo assim, a época ainda era romântica, e além de trabalhar, eu também corria essas provas. Hoje não é mais possível fazer isso”.

Seminários - formação de novos medidores

 


IAAF – AIMS – FPA
Ao falar sobre a regulamentação das provas, Rodolfo aproveitou para explicar melhor como funciona a coordenação e a distribuição de responsabilidades entre os órgãos internacionais, federais e regionais.

IAAF: Versa sobre todos os eventos de atletismo.
AIMS: Versa apenas sobre a corrida de rua.
CBAt/Br: Subordinada à IAAF, juntamente com todas as confederações de cada país.
FPA – Federação Paulista de Atletismo/BR: Subordinadas às confederações nacionais estão as federações Estaduais/regionais.


O novo regulamento de corridas de rua da CBAt, que deverá sair nos próximos dias tende a ter seis itens obrigatórios:

1- o percurso medido (pelos padrões da AIMS)
2- o tempo de todos os corredores cronometrados
3- a classificação dos corredores deve ser conhecida
4- o percurso deve ter assistência médica
5- percurso deve ser fechado ao trânsito
6- deve haver policiamento nas áreas de concentração


Este documento trará novos sistemas de taxação, cujos termos implicam que uma entidade, para realizar uma prova, terá que pagar um Alvará para a Federação local ou uma taxa para a CBAt. Não haverá dupla tributação. A decisão será feita conforme o nível da prova:

Nível 1 – Internacionais – “permit” para CBAt
Nível 2 – Nacionais – “permit” para CBAt
Nível 3 – Regionais – alvará para FPA

Rodolfo contou que todas as provas da Corpore seguem os padrões oficiais. Algumas delas, como a 10 K São Paulo Classic, Meia Maratona e Maratona são oficializadas pela CBAt e IAAF. A 10K São Paulo Classic, também é oficializada pela AIMS. “As demais corridas do calendário são feitas com o mesmo capricho, mas como são provas locais, não há a oficialização”.





 
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