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Entrevista - Ricardo D'Angelo

17/08/2004, por Marcel Trinta

Treinador de atletismo desde 1980, Ricardo D’Angelo é um dos mais conhecidos e respeitados treinadores do Brasil. Um dos seus atletas de maior destaque é Vanderlei Cordeiro de Lima, o qual ele acompanhará em Atenas.

Leia abaixo entrevista com Ricardo e saiba mais sobre seu trabalho, suas expectativas e suas opiniões.

Como se iniciou no esporte?

Tomei contato com o atletismo nas aulas de educação física, com 13 anos de idade. Tinha um professor muito bom, seu nome é Sebastião Correia e ele era da Polícia Militar. Entre suas boas aulas, ele convidava os alunos que se destacavam para treinos de atletismo na ADPM, clube da Polícia Militar. Ele foi treinador do primeiro fundista brasileiro a se destacar no Brasil e internacionalmente, o José Romão de Andrade e Silva, e também presidente da Federação Paulista de Atletismo nos anos 80. Após curto período na ADPM, fui treinar no Constâncio Vaz Guimarães, Ibirapuera, com o Prof. José Antonio Rabaça, que no futuro me levou para o Clube Pinheiros. Com o Prof. Rabaça, me desenvolvi como atleta, conquistei resultados em nível nacional e aprendi a amar o atletismo, sentimento que trago forte dentro de mim até hoje.

Como foi seu início como treinador de corridas?

Mesmo antes de me formar em Educação Física, já iniciava minha carreira de treinador de atletismo estagiando no Centro Esportivo da Lapa, o “Pelezão”. Desde1980, ano em que comecei a atuar como professor e treinador nesse local, até os dias de hoje, sempre estive ligado ao atletismo, porém, trabalhei simultaneamente com outros 2 esportes, como preparador físico: em 1988, no time de Futsal da Hebraica e de 1990 a 1995, com basquetebol masculino na Pirelli, Sírio e Telesp. Trabalhei também como professor de educação física em uma escola particular por 4 anos, de 1982 a 1985.

O que o estimulou a entrar nesse ramo?

Meus principais estímulos foram meu treinador, o Rabaça, e a paixão pelo esporte e seu meio. O convívio com meus amigos do atletismo foi tão intenso que essas relações duram até hoje. Trabalhar com a competição foi outra motivação para encarar a carreira de treinador.

Ao longo desses 24 anos treinando, como você desenvolve seus treinos atualmente?

Minhas programações são produto de princípios científicos do treinamento desportivo. Após passar pela fase de atleta, estudante de educação física e treinador iniciante, você acaba desenvolvendo um estilo próprio de trabalho, porém sempre baseado nos princípios do treinamento. Esses princípios são: individualidade biológica, sobrecarga, especificidade e reversibilidade.

Qual seu público alvo? Quem você treina?

Hoje trabalho com atletas de elite na equipe do Pão de Açúcar/BM&F, com atletas iniciantes na equipe Orcampi/Unimed de Campinas e presto consultorias na área de corridas.

Quais seus alunos de maior destaque?

Entre os atletas de elite, tenho o Vanderlei Lima, Elias Bastos, Eduardo Nascimento, Adriano Bastos, Celso Ficagna, Vinícius Lopes, Gilson Vieira e o João Stingelin, melhor fundista juvenil de 2004. Entre aqueles que oriento via consultoria, destaco o Arilton Malagrino (60 anos) que em menos de 1 ano de treinamento sistemático correu 1h30min50seg para a meia maratona.

Já estamos vivendo as Olimpíadas de Atenas e nos próximos dias teremos as competições de atletismo. Quais suas expectativas?

Acredito que o Brasil está com uma excelente equipe em Atenas. Temos atletas experientes, que já participaram de outras edições dos Jogos e outros, em desenvolvimento, tentando bons resultados. Entre as expectativas de medalha, vejo as mais claras com o Jadel no salto triplo e o revezamento 4x100 masculino. Outros atletas podem ser finalistas e entrar entre os 8 melhores como Osmar Santos e Luciana Mendes nos 800m, Vanderlei Lima na maratona, revezamento 4x400 feminino e Elisangela Adriano no peso.

Como você já informou, Vanderlei Lima é treinado por você e um dos mais consistentes maratonistas brasileiros. Há quanto tempo ele treina com você e como é o treinamento dele?

Treino o Vanderlei há exatos 12 anos e meio. Seu treinamento é individualizado e complexo, respeitando aqueles princípios já citados. Inclui 11 a 12 sessões de treinos por semana, musculação, técnicas de corrida, com predominância de trabalhos de capacidade aeróbia.

Muitos atletas que correm atualmente sonham em participar de uma maratona. Depois de quanto tempo de treinamento você acredita que uma pessoa está preparada para encarar uma maratona?

É preciso o atleta ter um histórico esportivo antes de iniciar em maratona. Estudos mostram que os atletas devem estar completamente desenvolvidos e com uma condição fisiológica consolidada para receber a carga de uma maratona. Este tempo pode variar de atleta para atleta, por exemplo: no caso de um atleta ter iniciado sua carreira com 17 anos, ele deverá primeiro se formar, amadurecer fisicamente e assim, com 25 ou 26 anos ele poderá correr os 42km; já para outro atleta que inicia no esporte mais tarde, na fase adulta, embora já tenha passado pelas fases de crescimento e desenvolvimento maturacional, é preciso que ele esteja totalmente adaptado a sistemática do treinamento, respondendo adequadamente as cargas de trabalho no treino e na competição, e isto pode levar entre 4 a 6 anos.

Como você vê o crescimento das corridas de rua no Brasil?

Bem, este é um capítulo bem interessante. Não tenho nada contra as corridas de rua, embora entenda que seu crescimento desordenado, prejudica demais a evolução do atletismo de fundo do Brasil. Por um lado, temos um grande número de eventos, com boas premiações, recordes em número de participantes, divulgação na mídia, entre outros aspectos que posso considerar positivos. Porém, estamos em falta com a renovação de atletas e além disso, o que entendo ser ainda pior é que fazemos um julgamento errado do caminho que os bons fundistas de hoje seguiram no passado. A maioria dos treinadores de hoje encaminham, assim que seus jovens atletas demonstram potencial, diretamente para as corridas de rua, desconsiderando a principal etapa na formação do fundista: a participação na pista e no cross-country. Isto nos leva a perceber que temos pseudotalentos correndo distâncias muito maiores daquelas indicadas para sua idade, na rua, e com carreira de curto prazo, sem nunca ter participado de uma úmica competição em pista. Qual a justificativa deste comportamento? Sempre caímos na falta de apoio e que o garoto precisa ganhar dinheiro para poder continuar a treinar. Quando nos dermos conta de que precisamos renovar, espero que não seja tarde demais.

Você acredita que estamos em uma crescente nas corridas de rua e muitas pessoas ainda vão aderir ao esporte?

Acho que entre os chamados amadores o mercado ainda irá crescer muito, justamente porque para este segmento está bem organizado.

Quais os cuidados necessários para quem está iniciando no esporte?

Bem, em primeiro lugar procurar um profissional da área habilitado e capacitado com quem se orientar. Estabelecer objetivos concretos, ter muita determinação e respeitar seu corpo.

Como você vê o trabalho da Corpore junto aos treinadores e corredores?

Entendo que o trabalho da Corpore foi e é essencial para a evolução das corridas de rua no Brasil. Todos aqueles que “acham” que sabem organizar uma corrida de rua deveriam se dignar a passar por alguns eventos pelos bastidores da Corpore. Certamente, aprenderiam muito e passariam a respeitar de fato os atletas em seus respectivos eventos.

Clubes como a Corpore em SP e outros espalhados pelo Brasil ajudam nesse crescimento da corrida de rua?

Não existem no Brasil clubes como a Corpore. Se existissem, as corridas de rua estariam em primeiro nível mundial sob o aspecto organizacional e logístico.

Você também tem uma experiência na imprensa, escrevendo em revistas e comentando a São Silvestre. Como você encara esse trabalho?

Comentar a São Silvestre na TV foi legal, especialmente quando fiz a de 1997 quando meu atleta na época, Emerson Iser Bem, venceu. Atualmente, a convite de meu amigo e amante das corridas Alfredo Donadio, tenho participado da transmissão pelo rádio, que também é muito legal e você tem muito mais tempo e liberdade para falar. Quanto aos artigos que escrevo para a revista SuperAção, tenho tentado passar um pouco de minha experiência como treinador e atingir o leitor com isso. Confesso que no começo foi um pouco difícil, mas depois de algum tempo, descobri a magia de escrever e hoje gosto muito da oportunidade de escrever o que desejo em um espaço como o que tenho na revista.



 
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