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Minha História - Aldo Virano

02/06/2005, por Corpore

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Aldo Virano

Caros amigos,
Esta é uma viagem um pouco diferente. Não passo pelo Vietnã, India, Cambodia ou Patagonia. Porém esta rota tem uma história de mais de 100 anos...quem tiver paciência que acompanhe...
Segunda Feira 18 de abril de 2005.

Falta menos de 10 minutos para a largada da 109ª Edição da Maratona de Boston, a mais antiga do mundo e “a true American Classic”. Mais de 20.000 inscritos estão distribuídos nos 20 “Subdivisions” currais, sem contar a Elite de origem predominantemente africana que está correndo atrás da premiação "The Big Money": $100,000 em dinheiro para os primeiros colocados tanto no masculino como no feminino. Me posiciono no curral número um, logo atras dos Profissionais. Pelo menos nas principais provas e maratonas que tenho participado ao redor do mundo nos últimos anos, não tem sido difícil largar em boa posição na frente. A organização rigorosamente classifica corredores de acordo com tempo estimado de conclusão do evento, e o mais importante, há respeito entre os atletas.

Ao Meio dia a temperatura está na faixa de 70 graus Fahrenheit, um pouco alta demais e de certa forma desfavorecendo boas performances. Falta pouco para o início de minha segunda participação em Boston (tendo corrido em 1998 no tempo de 2:35:58). Um atleta precisa qualificar para correr esta legendaria competição, sendo vários os índices conforme faixa etaria (em meu caso, 3:20 ou abaixo).

Contagem regressiva….”Countdown”...

Conhecemos a famosa história contada sobre o corredor (Pheidippides) que fez o percurso de 42 Km 195 mts para avisar ao povo da vitória grega sobre os persas. O histórico percurso (26.2 milhas, 42.195 metros) de Boston percorre as cidades rurais de New England: Hopkinton, Ashland, Framinghan, Natick, Wellesley, Newton hills e terminando a distância de "apenas" 26.2 milhas / 42 kilometros no centro de Boston em Boylston Street, perto da torre do John Hancock em Copley Square. Esta rota tem muitas histórias e vários astros como Bill Rodgers que por 4 ocasiões venceu a famosa competição, ajudando a alavancar o “Running Boom” americano. Inúmeros especialistas tentam ano após ano decifrar o único e difícil percurso da maratona de Boston: sao 16 milhas iniciais de várias decidas em diferentes ângulos e intensidades, mais 4 milhas e meia de subidas intercaladas culminando com a famosa Heartbreak Hill, e "finalizando" com mais 5 milhas de descidas.

Minhas metas iniciais eram: Objetivo 1: melhorar PR (Personal Record, melhor marca na distância): 2:33:30 (Disney 2000, 3o) / Objetivo 2: melhorar o melhor tempo anterior em Boston (2:35:58 1998) / Objetivo 3: melhorar 2:40. Objetivos audaciosos tendo em vista o dificil percurso, mas este é o real espirito motivador deste esporte, ir atrás dos seus limites, se esforçar e melhorar sempre!

É dado o tiro de largada! Durante o começo de prova em decida e em meio a uma avalanche de corredores, procuro me posicionar e largar de forma conservadora, sem pressa. Uma maratona jamais se decide nas primeiras milhas ou kilometros. Após primeira milha inicial a 6 minutos, ajusto meu ritmo na casa de 5:45 / 5:50 por milha (3:34/3:37 por Km). São descidas e mais descidas que não acabam mais, alguns trechos mais acentuados, outros quase planos.

A população das cidades por onde passa o percurso está toda na rua para acompanhar os corredores. É emocionante. Já competi em New York, Chicago, Rotterdam e Disney, mas Boston e uma prova muito especial. Você se sente forte só pelo fato de estar largando em Hopkinton. Boston Marathon representa praticamente um “Super Boll” das maratonas. A adrenalina pulsa forte. O apoio do público é cativante.

Passo os primeiros 5Km para 18:09, 10Km para 36:08, 15Km para 54:13, 20Km em 1:12:31 e a meia maratona para 1:16:27, tudo como programado e me sentindo bem. Um relógio. Média de 5:50 por milha exatamente. Ritmo exato para quebrar meu melhor tempo e obter algo em torno de 2 horas e 32 minutos. Sabia que seria muito difícil ou quase impossível o "negative split", ou seja, correr a segunda metade do percurso mais rápido que a primeira. Principalmente em uma prova predominantemente de descidas onde as "montanhas" estão na segunda parte do percurso.

Chegamos a primeira série de subidas na altura da milha 16. O ritmo naturalmente cai nas subidas, mas sigo em frente. Gradativamente o cansaço começa a chegar de forma intensa e irreversível. Meus dois quadriceps, de tanto martelados nas descidas, já dão sinais de exaustão...

São várias subidas intercaladas e chega um momento em que me pergunto (e também as outras pessoas na rua), esta é a tal da Heartbreak Hill? O povo não pára de gritar e incentivar. Continuo a escalada rumo ao topo. As subidas não são tão íngremes, porém descubro aos poucos e de forma dolorosa que não tenho mais quadriceps.

Chega o momento de descer novamente. “Teoricamente”, uma fase mais fácil. Só teoricamente, pois quem já correu uma maratona sabe a dificuldade dos kilometros finais.

Na altura da milha 21, o meu ritmo já caiu radicalmente, e praticamente não consigo mover o corpo, me arrastando em 7:30 por milha, ou 4:30/4:40 por Km. Mas o pior ainda estaria por vir.

Milha 22 ou 23, o corpo já não responde mais. Ácido lático até na orelha, porém concentrado predominantemente nos dois quads. Em cada passada, a sensação parece ser de estarem batendo com um martelo gigantesco nas minhas duas coxas.

Algo que somente fiz uma vez antes em quase 20 anos de atletismo, resolvo andar um pouco. Retomo posteriormente o trote, para delírio e aplausos "da galera" postada em cada calçada.

Resista...Aldo....memórias do tempo em que fazia meus fartleks na grama do Ibirapuera em companhia do melhor técnico de corrida brasileiro, Vanderlei de Oliveira, nos idos de 1989, me vem a cabeça....Não desistir nunca, e "the most important factor in running success is not the body but the mind" – o fator mais importante para o sucesso de um corredor não é o corpo, mas a mente.

Ao contrário dos primeiros 3 quartos da maratona, agora algumas levas de maratonistas passam por mim. Vou literalmente me arrastando para a chegada, finalmente completando este difícil evento no tempo lento de 2:51. Longe do meu objetivo, porém dentro das condições da prova foi uma experiência sofrida e que ficará marcada na memória. Com certeza as próximas competições no terreno plano Floridiano serão bem mais fáceis. Resultado suficiente para terminar como primeiro do Sul da Florida e segundo no estado.

Todos atletas, profissionais ou não, têm provas boas e ruins. Todos passam por sucessos e fracassos. Todos em algum momento quebram. Como exemplos, a triathleta Fernanda Keller quebra. A Paula Radcliffe quebrou nas Olimpíadas, para depois vencer em New York e mais recentemente, Londres. Na maratona de Boston, em 2005, eu quebrei. Atingi o famoso paredão, ou "The Wall". Terminei me arrastando. Mas não há motivos para preocupação. Não vivo disso. “It is just a passion” a corrida está no sangue desde pequeno. Outras provas ocorrem em futuro próximo. O esporte atletismo é assim mesmo. Não tenho dúvidas que atingirei meu objetivo de correr próximo a 2:30 ou até baixar esta marca. Principalmente depois de ter corrido recentemente meia maratonas na faixa de 1:12 / 1:13. Boston não é para residentes do Sul da Florida. Não há como replicar as condições específicas do percurso de Boston no terreno plano de Miami e Florida, não importando quantas pontes você subir e descer. Em São Paulo talvez teria condições de me preparar mais adequadamente, mas obviamente treinamos conforme as condições presentes.

Vocês me perguntam, como foi a viagem a Boston, foi "só" pra correr a maratona como doido? Nao, me diverti bastante com amigos e tive oportunidade de “descansar”. Boston, assim como Chicago, é uma cidade fantástica. Ótimos restaurantes e em cada um deles, no mínimo um garçom ou a cozinha inteira é formada por brasileiros. A melhor forma de se obter uma rápida e prática primeira impressão de uma cidade continua sendo, em minha modesta opinião, um trote de 30/40 minutos pelas ruas.

Em dezembro tem mais no plano de West Palm Beach International Marathon....

Saudações atléticas,
Aldo

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